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Quebrar o hábito: uma entrevista aos Psychic TV

Nuno Calado

Formados no inicio da década de 80 por Genesis P-Orridge, dos Throbbing Gristle, os Psychic TV são uma lendária banda inglesa avant-garde, famosa pela sua abordagem musical orientada para o choque e para a confrontação. A sua sonoridade abarca pop psicadélico, white noise quase inaudível, frágeis baladas, mesclas industriais, spoken word e música étnica experimental - tudo isto enlaçado por uma sensibilidade dadaísta. Tocaram em Portugal apenas uma vez, em 2004, no Porto, pelo que a sua actuação na próxima Quarta-Feira, 24 de Abril, no Centro Cultural do Cartaxo é uma rara oportunidade de ver algo muito especial.

A propósito do regresso da banda a Portugal, Nuno Calado entrevistou Genesis P-Orridge para o seu programa Indiegente, na Antena3. Mas mais do que uma entrevista a uma banda, o resultado assemelha-se a um manifesto político e artístico, demonstrando uma maneira muito própria de sentir a música e o mundo, de questionar as estruturas dominantes e tudo o que tomamos por garantido.

 

NC: É a primeira vez que vêm actuar a Portugal?

PTV: Não, na realidade tocámos há uns anos atrás no Porto, num teatro muito antigo, e foi um concerto muito emocionante. Foi também impressionante ver o quanto a economia portuguesa estava a sofrer por culpa de todos esses estúpidos banqueiros da União Europeia. Havia muitas lojas fechadas e era notório que as coisas se estavam a desmoronar: uma visão bastante triste e deprimente.

 

NC: E agora ainda estamos pior, acredita... Realmente também não entendo o que se passa na cabeça desses políticos e banqueiros.

PTV: Pois, foi o que ouvimos dizer, isso é terrível! Um certo dia, quando nós andávamos na Universidade, a estudar Economia e Administração Social, surgiu um trabalho para apresentar, eu disse à minha professora que queria escrever sobre os sem abrigo, os vagabundos e as pessoas com distúrbios mentais que viviam na rua. Ela virou-se para mim em frente ao resto da turma e disse – “Essas pessoas são os sobejos do lixo da humanidade. E tu devias ir viver com eles porque és igualmente reles.” (Risos)

E eu aceitei o desafio e fui mesmo: juntei-me a uma comuna chamada “The Exploding Galaxy”, que mais tarde se passou a chamar “Transmedia Exploration”. Foi uma experiência mesmo positiva, era uma clássica comuna dos anos 60. Quando lá chegávamos, todas as roupas era colocadas numa caixa, e o primeiro a acordar de manhã era o primeiro a escolher a roupa que ia vestir, e os últimos ficavam com o que sobrasse; não havia paredes, nem sequer nas casas de banho, porque a privacidade era considerada uma mania burguesa; tínhamos que pôr o nosso dinheiro todo numa caixa, e depois se precisássemos de dinheiro para alguma coisa, tínhamos que realizar uma reunião da comuna e provar que precisávamos mesmo dele: se por exemplo quiséssemos dinheiro para o comboio, eles diriam — “Sim, com o dinheiro poderias lá chegar em 2 horas, mas se fores à boleia e a pé chegas lá em 2 dias. Vai mas é a pé.” (Risos)

 

NC: Isso deve ter sido mesmo uma experiência incrível, em todos os sentidos!

PTV: Foi verdadeiramente intenso e muito divertido. Foi também uma experiência muito positiva no que diz respeito a quebrar pressupostos que tomamos como garantidos relativamente à propriedade e à privacidade, por exemplo, e à diferença entre aquilo de que verdadeiramente necessitamos e aquilo que pensamos que necessitamos. Foi algo que ficou comigo até hoje: sempre tentei improvisar e fazer o máximo com o mínimo de recursos possíveis.

 

NC: É provavelmente aí que se encontram as fundações da música e da arte que vocês fazem desde então, não?

PTV: Sem dúvida! Essa comuna, combinada com o que aprendemos de pensadores como William Burroughs ou Brian Gysin, foi e ainda hoje é a caixa de ferramentas do meu corpo de trabalho, em todos os sentidos. Questionar a necessidade de algo e as estruturas que nos são impostas, os hábitos... Temos que quebrar as rotinas de todas as formas que nos sejam possíveis – andar para trás em vez de para a frente, e nu em vez de vestido, por exemplo. É um poderoso método de aprender o quanto estamos condicionados nos nossos comportamentos e reacções.

 


William Burroughs

 

NC: Bem, aposto que nem toda a gente conseguiria sobreviver, isto é, manter a sanidade mental num contexto desses...

PTV: Para dizer a verdade, nós não só sobrevivemos, como nos tornámos mais fortes a partir desse contexto, olhávamos para aquilo como o que era na realidade: exercícios destinados a quebrar com os hábitos, no sentido libertar a imaginação e evitar cair nas armadilhas preparadas para nós por quem está no poder. Mas é verdade que algumas pessoas sofreram colapsos mentais: houve um gajo que ficou catatónico e que se sentou num canto sem falar durante dias. Aquilo desafiava de tal modo a experiência de vida dele até ao momento, que em vez de tentar mudar – ou ao menos perceber – as estruturas em que se encontrava envolvido em termos de sociedade, se recusou pura e simplesmente a questionar, e entrou nesse estado catatónico. Teve que voltar a correr para o pé da mamã e do papá que, veio-se a saber, eram podres de ricos e tinham uma grande quinta. Depois acabou por ficar bem, mas talvez não se tenha feito uma pessoa tão completa.

 

NC: E os vossos níveis de motivação e entusiasmo, ainda são os mesmos de há 20 anos atrás?

PTV: Temos o mesmo entusiasmo e a mesma energia criativa, mas a verdade é que o meu corpo tem neste momento 63 anos, e que usei e abusei dele devido ao tipo de vida que escolhi: não temos a mesma energia física que tínhamos, e o meu corpo acaba inevitavelmente por ficar exausto. Mas assim que subimos ao palco, o meu corpo compromete-se a 150% com a experiência, e a energia brota a jorros da adrenalina, da música e do público, claro. Quando as pessoas já conhecem a nossa música, fundimo-nos num só organismo, é um momento de comunhão temporária sem igual. Nós tentamos atingir todos os sentidos deles ao mesmo tempo, e a criar uma sobrecarga de estímulos – ideias, vídeos, psicadelia, palavras, som – de maneira a que o público se possa deixar envolver como se estivesse num banho quente, mas um banho com ondas extraordinárias de quando a quando.

 

NC: Tu tens 63 anos mas estás-te sempre a recriar, e a integrar elementos recentes com outros mais antigos na vossa música. Como olhas agora para o vosso trabalho?

PTV: Neste momento a banda é composta por duas mulheres biológicas e dois homens biológicos, o que lhe confere uma espécie de equilíbrio entre yin e yang: temos Jess Stewart nos teclados e flauta, Alice Genese no baixo, e Edley Odowd na bateria, na percussão, e agora também nos samples. Depois há o novo guitarrista Jeff “Bunsen” Berner, e ele é precisamente aquilo que faltava à música que eu ouvia dentro da minha cabeça. É graças a ele que estamos neste momento a tocar exactamente aquilo que imaginámos durante todos estes anos desde os 60s. É tão emocionante: finalmente aos 63 anos estamos a tocar aquilo que sempre quisemos... Somos mesmo afortunados! (Risos)

Toda a banda é constituída por músicos incríveis. Como deves saber o nosso trabalho passa por muita improvisação, e as letras das músicas estão sempre a mudar, já que muitas vezes as inventamos em palco. Assim, a nossa banda tem que ser composta por músicos realmente virtuosos nos seus respectivos instrumentos, mas que por outro lado tenham completa capacidade de improvisar e de seguir as minhas deixas. E de certo modo isto tem tudo haver com o que falámos antes sobre a comuna: estas pessoas transformam-se numa banda que está em constante mutação à volta de estruturas que determinamos, e essa é a maneira perfeita de tocar. Se uma banda ensaia a mesma coisa uma e outra vez até à exaustão e a toca sempre de forma inalterável, porque é que as pessoas hão-de ir aos seus concertos se a podem ouvir perfeitamente no disco? Um espectáculo ao vivo deve ser isto e muito mais: deve revelar as energias que estão por trás da música e as ideias que estão por trás daquilo que as letras dizem, e deve-te absorver lá para dentro até te esqueceres que existes, e te tornares numa espécie de partícula, fundindo-se e flutuando por esse buraco negro, por esse espaço incrivelmente energético... é isto a experiência do Rock'n'Roll.

 

 

NC: No que toca a elevar o público a um estado de transe, vocês já são quase especialistas...

PTV: Sim, nós temos provavelmente mais experiência nisso do que a maioria das pessoas, já que no meu caso pelo menos, há uma continuidade desde há décadas, e a intenção sempre foi essa, criar uma experiência psicadélica única com som e visuais. Nos bilhetes dos nossos concertos costumava dizer “Estados alterados são bem-vindos”. Agora esperamos apenas que as pessoas se elevem a esses estados através da experiência pela qual vão passar. Qualquer uma das maneiras é boa. (Risos)

 

NC: Sentiste que estavas muito à frente do teu tempo quando começaste a misturar Rock e psicadelia com aquilo a que as pessoas começavam a chamar Acid House, e a transformar tudo isto em algo de novo?

PTV: Nós ficámos bastante desiludidos com o Acid House. Quando tudo começou, convencemo-nos de que tínhamos encontrado a chave que todos andávamos à procura para criar música de dança psicadélica realmente moderna. – “Como poderia ser criada esta música? Que tipo de ritmos teria?” – Costumávamos ir a clubes como o Shoom, onde havia apenas fumo e strobs vermelhos, e a minha versão da coisa não incluía apenas riffs e loops estranhos, mas também pedaços de conversas e discursos de políticos, mais como uma espécie de Jackson Pollock em ácido, dar-lhe com tudo, e misturar todo o tipo de sons. A meu ver não devia ser algo linear, o ritmo não devia ser consistente e contínuo, mas sim chocante, estranho e surpreendente: essa sim é a minha visão da psicadelia.

Quando alguns artistas começaram a levar a coisa no sentido de – “ Eu estou a fazer este género de música e tem que ter 130 batidas por minuto, senão não é Acid House.” – eu perguntei-me – “E não queres chamar a polícia já agora, para apontar uma arma à cabeça do DJ, não vá ele acidentalmente tocá-la a 131 bpms?” – Isto para mim não faz qualquer sentido. Porque é que alguém se há de querer limitar assim? Dá vontade de dizer – “Pára! Porque é que ainda estás a fazer exactamente a mesma coisa nos mesmos 130 bpms? Porque é que não estás a explorar formas mais interessantes?” – e embora alguns se envergonhassem disso, a grande maioria estava infelizmente demasiado orgulhosa por ver as suas músicas usadas em anúncios de carros e jogos de futebol. (Risos)

 


Genesis P-Orridge pelo artista Alex Klein

 

NC: Durante todos estes anos a banda Psychic TV já teve tantas colaborações... Como é que escolhes as pessoas para tocar contigo? São amigos teus com quem decides trabalhar, ou escolhes os músicos como se fosses um maestro, aproveitando as suas qualidades e especificidades?

PTV: Essa é uma pergunta bem interessante... No caso de PTV III, por exemplo, o que aconteceu foi que estávamos um dia em Nova Iorque – a Lady Jaye e eu, acabados de nos mudar para cá, e ela disse-me – convidaram-nos para ir a casa do meu amigo Edley comer esparguete, queres ir?” – e eu disse – “Sim, claro.” – e lá fomos nós. Estávamos todos à conversa – havia lá todo o tipo de gente do Glam Punk de Nova Iorque – e a certa altura Edley perguntou – Porque é que vocês já não tocam ao vivo?” – “Sabes, passámos por todas estas situações bizarras em Inglaterra, fomos expulsos de lá e tudo, e temos estado apenas a tentar sobreviver. O mundo da música é mesmo horrível, e é demasiado cansativo lidar com essa gente tão superficial e que nos mente na cara... Claro que fazer música sabe muito bem, e todo o processo criativo é demais, mas depois tudo isso é completamente arruinado por essas pessoas horríveis.” – ao que ele respondeu – “Ainda assim acho que a vossa música é excelente e que deviam voltar a partilhá-la com o mundo.” – Assim sendo, ele que nos arranjasse uma banda, respondemos nós... e não é que ele arranjou mesmo? Apresentou-me alguns músicos, começámos a improvisar e acabámos por nos ir fundindo nesta equipa incrível que somos agora.

 

NC: Nova Iorque, com a sua tradição artística e nomes como Burroughs e Warhol, é provavelmente o sítio perfeito para viveres, não é?

PTV: A verdade é que, se me tivesses perguntado isso um ano antes de nos termos mudado para cá, eu teria provavelmente respondido algo como – “Nem pensar. Nunca viveria em Nova Iorque: Nova Iorque é a retrete da Europa, para onde a Europa despejou todos os indesejáveis, todos aqueles que não quer.” – mas também poderia ter tido um momento de inspiração e pensado – “Esperem lá, mas a Europa não me quer a mim!” (Risos) – assim que talvez seja o sítio perfeito para eu viver. Além disso, as pessoas aqui foram mesmo boas para mim: temos galerias que realmente apoiam o nosso trabalho, e uma equipa de amigos e colaboradores muito especiais que sempre nos foram ajudando sem pedir nada em troca – sim, porque nós sempre vivemos mês a mês como toda a gente, sempre a tentar arranjar dinheiro para pagar a renda, etc.

Temos uma comunidade incrível aqui, muitos deles ainda bastante jovens, nos seus vintes, que são muito inspiradores e estão sempre preparados para partilhar o seu tempo, as suas ideias e a sua energia, de maneira a fazerem as nossas ideias acontecer. E isso é muito bonito de ver, já que significa que pelo menos uma parte daquilo que dissemos nas últimas décadas ainda faz sentido para eles. Sim, a América tem sido muito boa para mim, já que a Inglaterra não me quis, como sabemos. A Inglaterra destruiu todas as fotos dos meus filhos de pequenos, por exemplo, quando invadiu a minha casa.

Mas é curiosa a ironia... acreditas que a Tate Britain – não aquela moderna, grande, mas aquela mais antiga e conservadora – comprou o meu arquivo? E quando o fizerem escreveram-me a perguntar – “Podemos ficar com a escultura de tampões, não podemos?” – “Sim, claro.” – e agora, recentemente, recebi uma carta deles que dizia – “Após uma reunião dos directores da Tate Britain, mudámos a sua escultura de tampões dos arquivos da Grã Bretanha para a Colecção Nacional de Belas Artes.” – Não é bizarro e, de certo modo, bonito também? Creio que fomos perdoados, mas isso não quer dizer que estejamos seguros... (Risos)

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