Primavera Sound: a consagração

Señor Pelota

Revelado recentemente o cartaz do Primavera Sound deste ano, aqui fica o relato inédito de Señor Pelota da última edição do festival.

Ao fim de 5 anos, eis a afirmação deste NOS Primavera Sound no Porto como um dos festivais mais importantes em Portugal. Este foi o ano em que —com o cartaz mais equilibrado e transversal de sempre e destacando-se assim de um mero festival indie da moda— o festival realmente deu que é muito mais do que isso. Este ano o Primavera arriscou em nomes menos garantidos, misturando consagrados com valores emergentes, a nova Soul, o Hip Hop puro e duro do momento, a Electrónica de excelência e, claro, as guitarras —das mais experimentais às mais clássicas. É esta a essência do Primavera Sound.


Dia 8

Cheguei a tempo de ver Miguel. Vindo da California, tocava uma espécie de nova Soul, sempre a piscar o olho ao rock. Apesar de ter casa cheia neste final de tarde, o artista estava morno, e bem tentou puxar pelo público mas sem grande sucesso. Embora insistindo demais nos solos de guitarra, a banda era competente e todos os elementos eram rastafari e usavam camisas com motivos tropicais. Em disco aquilo soa bem, mas à medida que o concerto ia evoluindo, eu fechei os olhos e parecia que estava ouvir Brian Adams: tive de fugir.

Fui espreitar Arab Strab ao Palco Super Bock, velhos senhores do Rock inglês, sempre melhores nos momentos instrumentais com rasgos de psicadelismo. O violino, as guitarras, e os sintetizadores estavam óptimos, dispensaria apenas a drum machine com ritmos 4/4 que se sobrepunha à bateria em alguns temas.

De volta ao Palco NOS, eis que chega um dos nomes mais aguardados da noite, Run The Jewels, o Hip Hop oriundo de NY com pouco bling ding e de discurso muito politizado. Apenas dois anos depois de terem feito história no Palco ATP —com uma audiência muito mais reduzida mas que ficou absolutamente rendida, eu incluído— este ano foram promovidos ao palco principal: está certo. Aqui tudo é o que é, dois excelentes MCs e um DJ que lança os instrumentais e faz scratch por cima. Muitas referências a erva e ao facto da cidade do Porto ser um paraíso. O público não só está totalmente rendido como ainda sabe as letras.




Flying Lotus chega a solo atrás das maquinas e apresenta a sua fusão entre batidas quebradas e 4/4, numa espécie de Soul high tech muito bem cozinhada. Escondido atrás da tela transparente dupla onde, sobrepostas, se projectam imagens gore em animação ultra-realista a uma velocidade imprópria para epilépticos, revisita Ghost in The Shel e Twin Peaks, mas de forma muito desconstruída e experimental. Dois dias depois teria sido o warm up perfeito pra Aphex Twin.




Os Justice já há muito chegaram ao pódio dos espetáculos de música electrónica, afirmando-se actualmente como os mais famosos descendentes do French Touch dos noventas ainda em actividade. Claro que a medalha de ouro pertencerá sempre aos Daft Punk, que os próprios Justice assumem como influencia. Infelizmente, os senhores dos capacetes andam com pouca vontade de se mostrar ao vivo, e o Sudoeste 2006 já deixa muita saudade. Voltando aos Justice, o formato é uma espécie de DJ Set onde cruzam as próprias faixas, tocando hit atrás de hit e focando-se essencialmente no seu repertório mais antigo. Gaspard e Xavier jogam Tetris por entre as quatro bancadas onde se acumula toda a sua parafernália de equipamento. Os 32 amplificadores da Marshal em cima do palco transmitem a ideia de potência sonora, mas são na verdade painéis de LED, que se juntam aos 8 painéis móveis pendurados no placo que rodam mas que também são espelho: é difícil de explicar, só mesmo estando lá para ver! Embora seja de facto um bom espectáculo audiovisual, há pouca novidade aqui, e as músicas novas ninguém deu por elas. Stress e D.A.N.C.E. fizeram as delicias dos mais revivalistas, mas foi só isso.


Dia 9

Comecei este dia com dificuldade já que, pela primeira vez, houvera after oficial do festival na discoteca Indústria: absolutamente épico. Mas nada que um cachorro com molho de francesinha e três príncipes ao pequeno almoço não resolvam. Já no recinto, ainda a tempo de ouvir Whitney, deitei-me a na relva deliciado com aquela Pop fofinha mas não cedi aos seus encantos. À minha volta havia muitos casais melosos, e resolvi aquilo com uma cidra bem fresca.

Lá acordei ao ouvir a Angel Olsen, que rapidamente me conquistou: grande disco, excelente interpretação, uma voz que enche o palco, em completa sintonia com os músicos nos momentos instrumentais, oxalá todas as cante-autoras fossem assim…



Sleaforfd Mods é um concerto essencial em 2017 por toda a carga política que acarreta: é a revolta da classe trabalhadora inglesa, a cascar em tudo e todos. São dois homens em palco, mas um só dança —embora não tanto como Bez das maracas nos Happy Mondays— e carrega no play do laptop. Os instrumentais são de andamento uptempo, com bassline e percussões bem fortes, sempre no limite. O outro é o senhor do microfone, que não para nem um segundo pois tem muito para dizer. É o Punk em toda a sua essência, traduzido para o Século XXI.

Grande cabeça de cartaz deste dia de enchente no parque da cidade, passou-me totalmente ao lado o Bon Iver e, pelo que sei, não perdi grande coisa. A razão foi simples: neste segundo dia já funcionavam os quatro palcos e um homem tem de fazer escolhas.




À mesma hora de Bon Iver, tocavam Swans no Palco (ponto), e vê-los ao vivo é uma experiência espiritual. No mesmo local, três anos mais tarde, volto a ser presenteado com um enorme concerto, talvez o último, pois parece que a banda optou pelo eterno descanso no fim desta tour. Todo o espectáculo obriga a um verdadeiro exercício de contenção: com momentos de pura jam por uma afinadíssima orquestra de distorção conduzida pelo maestro Michel Gira, e dois amplificadores para cada músico, aquelas duas horas de Rock exploratório são uma espessa parede sonora que nos trespassa o corpo de um lado ao outro: Música de e para homens de barba rija.

Eis que a fome aperta e segue uma bifana da Conga e uma sandes do Guedes. Dois assuntos clássicos resolvidos de uma cajadada só, estou preparado para o que se segue. No Rock Psicadélico dos King Wizard & the Lizard Gizzard, tudo é rápido, estes sete moços Australianos com duas baterias sabem ao que vêm, e temas como Gamma Knife fazem-nos sentir com 16 anos outra vez.

Que fique claro que sou fã assumido de Nicholas Jaar, e que já perdi a conta das vezes que o vi em vários formatos, como Darkside, com banda, DJ set… No Primavera apresentou-se a solo nas máquinas, o que não foi suficiente para encher o Palco NOS. Jaar experimentou, e eu tenho de lhe tirar o chapéu por isso, mas foi morno e ficou curto para encerrar aquele dia.




Finalmente cheguei ao Palco Pitchfork (a tenda) mesmo a tempo para ver Richie Hawtin, o canadiano que é o patrão do Techno mundial, e que veio cá mostrar porquê. Live-act sem truques na manga, muita maquinaria e música a acontecer em tempo real. À bruta e sem facilitar, com secções rítmicas e contratempos alucinantes, a música mantém-se sempre acima dos 130bmp, numa cavalgada pura para quem se deseja entregar a uma boa aula de dança individual, com ou sem aditivos.

Coube a Mano le Tough, a difícil tarefa de fechar a seguir a Hawtin, e ele bem tentou acompanhar mas teve eventualmente de desacelerar a locomotiva. Acabou por ser um bom DJ set, de House com linhas de baixo actuais e alguns clássicos pelo meio, como foi o caso de Celeda, e com boa uma piscadela de olho ao publico português com "The Horn Ride", em jeito de tributo aos Underground Sound of Lisbon.


Dia 10



O dia começou no Palco Super Bock, com Elza Soares sentada no seu pedestal. Imóvel do pescoço para baixo, não padece no entanto de falta de garra nem de entrega. O público reconhece-lhe isso e responde em força, quando ela pede mais barulho em bom português de sotaque Carioca. Uma grande enchente para presenciar o comovente concerto, onde a octogenária aborda temas relacionados com a política e com os direitos das mulheres. A certa altura ela explica que, se não fosse a grande banda destes seus meninos, o disco "Mulher do Fim do Mundo" não existiria, agradecendo-lhes a eles também. É impossível prever o futuro, mas por entre o público alguém dizia que Elza irá morrer em palco um dia e que, se assim for, com certeza deixará esta vida feliz e realizada.

Era tempo de ir conhecer os Wand, e confesso que estava ansioso. Parceiros de Ty Segall, tudo é bom nestes miúdos, e o sol da Califórnia brilha neles: psicadelismo, Garage e Noise Rock com muitas variações nos andamentos das canções. Foi pena não visitarem Ganglion Reef e Golem, como eu gostaria, mas ainda assim foi uma hora muito bem passada.

Depois de Wand fui espreitar a banda fetiche do Primavera Sound: os Shellac. O Rock negro predomina e "Wingwalker" é o momento alto: tal como numa metáfora, vemos a nossa vida como quem a vê de fora, numa espécie de viagem astral. Muita distorção, um baixo potente, uma bateria maquinal e a guitarra cavalgante atada à cintura de Steve Albini. Não falham.

Outro dos concertos da noite seria o dos Make Up de Ian Svenonius: a banda Post-Punk americana está de volta aos palcos. O final dos 90s, onde realmente foram artisticamente relevantes, já vai longe, mas isso não invalida o estatuto de banda de culto que é preciso ver pelo menos uma vez na vida. E que energia senhores! Ian só por si é um one-man-show, e talvez um dos maiores frontmen desta vida: ainda não tinha terminado a segunda música e já andava por entre o publico, quase a engolir o microfone: tudo certo. Lamentei apenas o som deste concerto não ter estado tão bom como no resto das actuações deste Palco (ponto), que este ano foi sem dúvida o melhor de todo o festival.

Os Metronomy são pura boa disposição, cações de uma Pop electrónica com baixos cheios de groove. Declarei amor eterno à baterista Anna Prior (não fui o único) e fiquei à espera até ao fim que tocassem o clássico do primeiro disco "You Could Easly Have Me", mas não aconteceu. Falhei os Death Grip, que tocavam ao mesmo tempo na outra ponta do festival: tudo uma pena.



O melhor de tudo e de todos os tempos ficou para o fim. A nave de Aphex Twin aterrou no Porto. Aqui não há concessões: Richard D. James não vem cá para fazer amigos. Tudo foi um espectáculo de experimentalismo puro, desde a viagem ao seu universo visual tão próprio até à sua maneira única de estar na música electrónica. Quem estava à espera de ouvir os hits "Come to Daddy" ou "Window LIcker" desesperou, pois não houve nada sequer semelhante no alinhamento. Para terem uma ideia, o primeiro beat mais fácil entrou aos 35 minutos do show: a essa altura já alguns pensavam mal da sua vida e outros tinham abandonando o barco.

A instalação vídeo era monstruosa, com a manipulação em tempo real das caras de pessoas que estavam na fila da frente, ao estilo de Cris Cunningham, e evolui para toda uma narrativa esquizofrénica com alucinantes montagens, onde não faltaram António Costa, CR7 (o busto), Cunhal, Salvador Sobral, Lili Caneças, Jorge Jesus, o Emplastro e Marcelo, sempre bem distorcidas e sobrepostas ao sorriso maléfico e grotesco que é caraterístico de Aphex Twin: tudo isto estava totalmente sintonizado com o som, que fazia tremer o chão.

Mas a cereja em cima do bolo veio quando os ritmos aceleraram numa cavalgada sem fim e uma imponente bateria de lasers verdes se apontou ao público. Tudo como manda a lei. Foi a primeira rave a sério (ou o que se pode equiparar a tal no Século XXI) para muitos dos presentes, uns porque não tinham idade para lá andarem nos 90s, outros porque nessa altura só iam a festivais de Rock, e as raves eram um conceito alienígena que nunca quiseram experimentar. Houve momentos apoteóticos, a chegar aos 200 BPMs, recheados de Acid Techno e Jungle de outro mundo.

Tenho a certeza que houve muitos pesadelos nessa noite e muitos cérebros fritos durante as semanas que se seguiram, mas por tudo isso este foi um espetáculo realmente único, irrepetível e sem dúvida muito à frente do seu tempo. Não posso deixar de dizer que o Primavera teve um grande par de tomates em arriscar num artista tão pouco consensual. Para o bem o para o mal, uma coisa é certa: deste ninguém se vai esquecer.

Depois disto não devia ter ido ouvir mais música, mas fui :) Até 2018!




Todas as fotos (menos a penúltima) por Hugo Lima

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