Uma cadeira no mar

Mário Caeiro

Começo a tocar, e depois espero.
Simon James Phillips

O mar, o mar.
O mar, estas nuvens, e esta montanha.
Este piano troca as voltas ao tempo.
Fluid Radio, Reino Unido

 

Acaba de ser lançado Chair, novo disco de Simon James Phillips. O piano conforme tocado por Simon James Philips dilui o tempo e ao mesmo tempo compacta-o. Trespassa-o e depois distende-o até se tornar um corpo, a extensão metafísica do nosso corpo, do ouvinte. O gesto que se repete – attack and decay, attack and decay…  – adquire nas sete peças de Chair o carácter de uma paisagem que perscrutamos à procura das formas, para acabarmos mergulhados no informe vivido dessa busca. A expectativa que se abre cumpre-se assim nos fragmentos de um tempo próprio mas volta a retrair-se e a dissolver-se no acto de total entrega à materialidade do som.

Simon James Phillips repete os gestos mas a música, essa, não é de todo repetitiva. É mais como que um não tocar (melodias), aquilo a que o performer se entrega, para melhor poder entrar em ressonância com o instrumento, que por sua vez se torna extensão de um espaço que preenche como quem derrama luz. Ao vivo – Simon toca já este dia 4 de Maio no Panteão Nacional, juntamente com Peter Evans –, este fenómeno de iluminação por ondas sonoras é ainda mais intenso e emocionante, mas mesmo em disco abre um plano infinito que traz um odor de maresia ao minimalismo. Como se Reich e Palestine fossem convocados para sonorizar um quadro de… Turner… isto é, estas peças não são nem minimais nem maximais (Fluid Radio), nem seria possível atribuir-lhes tão somente o carácter de textura: a dinâmica imparável e desassossegada do mar não cabe na métrica de um painel de azulejo. Oiça-se «Set Icon Set remit», a ver se as minhas palavras fazem mais sentido.





 

É isso. De resto, só a audição repetida do album funciona como uma verdadeira experiência da sua intensidade; porque apenas aí começam a definir-se progressivamente, como uma filigrana que decidimos percorrer em detalhe com o olhar, os entrelaçados de harmónicos e suas sobreposições. Nos temas mais ‘fáceis’ – talvez o introspectivo «Chair (moth to taper)» – o crescendo é mais progressivo; noutros, como «Poul» somos atirados para o remoinho inapelavelmente, e deixarmo-nos afogar é condição sine qua non para gostarmos desta música como de um testamento artístico sui generis por um músico mais do que original, único.

Nota Simon que o piano é ‘falso’. Não é fácil arrancar-lhe toda a gama de sons expressivos, como acontece com as cordas, por exemplo. Nas suas próprias palavras:

Yes – the piano is tricky. It’s kind of a clumsy instrument. Again, as a classical pianist, I would play with singers or string players and they can produce this beautiful tone that is malleable – they can change the colour, volume and intonation of each note.

Com efeito, Chair é como que a descrição deste espaço inovador que a interpretação pianística quer abrir à sua própria técnica. É uma apropriação performática da espacialidade através do som. O espaço de gravação torna-se parte constituinte da experiência da audição. Torna-se arquitectura. Fruto de longas sessões de improvisação no Banff Centre, no Canada, o disco tira partido da sobreposição dos sons para criar ‘nuvens de nota’s suspensas que ressoam uma nas outras para envolver os ouvintes numa experiência complexa. Esta é muito difícil de catalogar, até porque Simon está menos interessado na… música, que na arte sónica – o piano como um dispositivo que cria o espaço onde se encontra (arquitectura).

Padrões e dedos, chiares de cadeiras e harmónicos, novos espaços e velhos intrumentos… (Fluid Radio)

Como na vida que não pára e cujos padrões deciframos apenas se a ela nos entregarmos ‘sem rede’, estas peças funcionam por cumulação, adição. São somatórios sem-retorno de imagens-audio-gráficas, conjurando lugares de som que surgem para de imediato nos perdermos lá dentro, desorientados pela nossa própria vontade de compreender.

Chair foi gravado na igreja de Grünewald em Berlim, com microfones criteriosamente distribuídos pelo espaço, para que esse voo das notas, resultado do seu encontro com os diferentes recantos do ambiente, possa continuar eternamente – também em casa, em vinil ou en CD. Saber que tudo é isto é feito num piano de cauda, sem qualquer pedais ou efeitos electrónicos, dá ainda mais crédito não apenas à potência do acto pianístico, como à excelência original da gravação, realizada pelo engenheiro de som Mattef Kuhlmey.

Uma breve descrição da técnica ajuda a perceber o quão libertadora é esta música, paradoxalmente tão tensa e intrigante, que acalma e perturba ao mesmo tempo, acordando-nos para o fluxo do tempo como talvez jamais algum disco tenha feito antes. É como se a própria limitação do instrumento – um dispositivo temperado de percursão que exige uma técnica específica – se transmutasse num exercício físico urdido enquanto habitação do espaço por um corpo em movimento mais do que introspectivo, de presentificação:

And you somehow move closer to being an observer – closer to being like an audience member. But I’m also against any theatricality in performance. I hate it. I’d love to play in the dark so nobody can see me and they only listen to the music. I don’t want to distract with meaningless movements.

Simon leva esta ética ao extremo, quando tenta – sim, tenta, porque saber se consegue seria outra questão – deixar as suas emoções de lado para não sobrecarregar a acção. Na verdade, essa tensão, entre a fugacíssima aparição de um aspecto biográfico e o controle quase maníaco da mão e do corpo, torna-se o happening que o espaço da performance amplia. Para quem já viu Simon ao vivo – repito, toca já dia 4 de Maio – a coisa… tem mesmo… onda. 

E claro, e aqui entre nós, sempre foi isto que interessou em qualquer forma de arte que queira ir à luta da comunicação. Num mundo dividido entre ‘experts’ da moda e brutos filistinos, desabafa Simon:

I’ve often struggled with how the audience might deal with my work. For the general public (and my mother) I worry that it’s too experimental, and for the experimental crowd, not experimental enough.

Termino citando um comentário propriamente crítico:

When Simon James Phillips fills the cathedral ceilings with his sonorous repetitions, the act of creation forces the sound to live, as a changing formulating thing, obeying certain laws of mathematics and phenomenology, and at the same time building on itself, a musical repetition being equally as transformed as the space it encounters, as defined by its surrounding silences as it is by its creators intention – more so in fact. If, as Deleuze suggests, creation is a sustained and active force, it is only because of an eternal return, each repetition harkening to its originator, only to find it already gone, and so each repetition starts a fresh almost as if it were building a solid field of sound, sound having the remarkable quality of being able to change into what it is and isn’t, informed and linked by memory, and yet a wild and new thing with each renewed noise. In this way, Simon James Phillips repeats sounds from time itself, each repetition not just an affirmation that time exists, but a forging into a new landscape that wouldn’t be if it weren’t for that note, repeatedly building upon its own memory of what has already past, but thrives fresh in what is being created new.

in Lisa Tacher

 

 

Chair – ver capa acima – é um album de Simon James Phillip para a Romm40. Ficamos à espera de mais, seja a solo ou com os Swifter – um trio de piano, bateria e electrónica com B. J. Nilsen e Andrea Belfi; ou ainda enquanto Pedal – duo com Chris Abrahams (pianista dos Necks). Até lá, mar para que te quero? Dia 4 de Maio, no Panteão, o bater das ondas do mar vai ressoar nas pedras mortas. As teclas vão ser as estrelas da tarde.

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