Oito: Uma Entrevista aos Octa Push

Marcelo Magalhães
Os portugueses Octa Push lançaram hoje o seu primeiro LP, intitulado "Oito" pela britânica Senseless Records. Marcelo de Magalhães aproveitou a deixa para ir falar com a dupla.


Ilustração por Salazare

 

Os Octa Push nascem em 2008 pelo “enforce” do colectivo Conspira, os dois irmãos camuflaram-se sob os alter egos de Mushug e Dizzycutter,  puseram-se a produzir música e tornam-se um dos pioneiros da cena bass em Portugal. Os anos passaram e eles actuaram em “Mecas” como, por exemplo, o clube londrino Fabric, o Festival Sonar ou o Amesterdam Dance Event; contaram com o apoio de gigantes como SBTRKT, Thom Yorke dos Radiohead ou até Gilles Peterson. Não fosse isto bastante, lançaram os seus temas em editoras que acolhem artistas como James Blake, Benga, XXXY, Martyn ou Rusko.

2013 está a ser um ano particularmente agitado para a dupla, a começar pela experiência que tiveram em Nairobi, entre 14 de Abril e 1 de Maio, no projecto “10 Cities” comissariado pelo The Goethe Institute, onde a música electrónica europeia interagiu com bandas locais, com o objectivo de produzirem temas em conjunto, que serão reunidos posteriormente numa compilação.

Há não muito tempo chegou a notícia que, depois de vários EPs, surgirá a 17 de Junho o álbum de estreia, de seu nome “Oito”, com selo da britânica Senseless Records.  A dupla tem ainda direito a uma merecida festa de apresentação do novo disco de bass que tentacula as mais exóticas geografias, esta será a 21 de Junho no MUSICBOX em Lisboa.

A propósito da experiência em Nairobi e do lançamento do novo álbum, fui falar com eles.


Olá! Como vão as coisas? (risos)

Mushug (M): Obrigado pelo convite!

Dizzycutter (D): Oi, tudo a andar? algumas.. ya!


Vocês já produziam antes de iniciarem os Octa Push, como começaram? E em que “sintonia” estavam?

M: Já fazíamos cenas, eu em particular depois de acabar o Alex Kidd e o Sonic, encostei a Mega Drive e experimentei mexer em programas de som (como o Acid e o Rebirth) que o meu irmão Dizzycutter tinha instalado no computador lá de casa. Comecei por fazer uns beats de Hip Hop à base de loops, depois ao longo dos anos fui brincando com outras linguagens sonoras. Curiosamente até aos Octa Push nunca nos passou pela cabeça colaborarmos.

D: Andámos sempre em estilos diferentes, caminhos paralelos que acabaram por não ser tão paralelos assim, já que passados uns anos acabámos por nos encontrar. Antes de entrar nas lides electrónicas já tinha tido bandas também. O Mushug na fase do Hip Hop ainda me lixou uns projectos que tinha no computador ao gravar rimas por cima de cenas drum and bass.


Os Octa Push nasceram devido ao muito espicaçar do colectivo Conspira. Querem recordar como é surgiu o nome e até o projecto?

M: Tive a sorte de conhecer a malta da Conspira, nos inícios do dubstep em Portugal, foram eles que me incentivaram a enviar a minha música, também apoiaram bastante a minha vertente DJ. Apoiaram também o meu irmão e acabaram por nos desafiar a fazer uma cena live conjunta, marcando-nos um gig no Porto Rio. Depois disso, tivemos que produzir temas, arranjar um nome e acabou por correr bem! Também foram importantes, pois foi na editora deles, Iberian Records que saiu o nosso EP “Deixa”.

D: Ya, eu nessa fase apareci depois . Tinha saído de casa e estive sem material durante mais de um ano. Fiquei sem produzir e farto do que andava a fazer, e sem sair muito... Acabou por ser o meu irmão a mostrar-me as primeiras cenas de Dubstep. Depois, foi uma questão de começar a levar os CD-R às festas que os Conspira faziam, as Dark Swing, no Mini Mercado. Numa dessas noites, cá fora surgiu a ideia em conversa!

A vossa música é influenciada por uma série de geografias, o quê que os vossos pais vos punham a ouvir? (risos) Agora a sério, que artistas serviram para, em parte, vos moldar do ponto de vista musical?

M: Assim de cabeça, lembro-me de ouvir Paul McCartney, música africana, assim como brasileira por causa da minha mãe. Sendo que na altura não me identificava com a última, no entanto é curioso porque hoje em dia sinto muito músicos como Edu Lobo, Joyce Moreno, Milton Nascimento e outros. Também tocava muito em casa Prince e The Doors por causa da minha irmã e muita música electrónica e Metal por causa do meu irmão Dizzycutter.

Consumi muito Hip Hop, clássicos como Nas, Wu Tang, Mos Def, Outkast, até mais tarde cenas como Def Jux, Antipop Consortium e Roots Manuva, assim como muita coisa nacional como os incontornáveis Micro, Sam The Kid e Chullage. 

Aos 18 anos, depois de um trabalho de férias, comprei os meus Technics e por consequência discos, inicialmente Drum and Bass e um pouco mais tarde material de editoras como DMZ, Tempa, Hyperdub, BPitch, Locked On, Warp e por aí fora.

D: Lembro-me de ser criança e andar a cantar para o espelho o "Tragedy" dos Bee Gees e "Born in the USA" do Bruce Springsteen. Nessa altura a ter também as minhas primeiras erecções com uma capa do" Electric Ladyland" de Jimi Hendrix que faziam parte da colecção de vinil do nosso pai. Ouvia-se também Sérgio Godinho, Zeca Afonso e discos de artistas Africanos, mais propriamente da Guiné, onde tinha vivido com os meus pais e irmã. Com cerca de 11, 12 anos comprei o primeiro álbum com o meu dinheiro da mesada.. Foi o Circo de Feras dos Xutos. "Já" em 1991 após ver na RTP os International Rock Awards, descobri a banda que mais me iria influenciar - Faith No More, que tocaram o "Epic", e eu tive a felicidade de gravar esse programa em VHS e poder consumir aqueles minutos compulsivamente durante meses, até conseguir arranjar uma gravação do “Live at the Brixton Academy” em cassete que um amigo meu tinha trazido dos EUA (Obrigado Orlando!). Já mais tarde vieram Goldie, Roni Size, Tool, Mr Bungle, Type O Negative, Orbital, Squarepusher, Aphex Twin, Amon Tobin, Dj Shadow, Coldcut, Krust e tantos outros!


Eu poderia despejar uma série de estilos para caracterizar a vossa música mas acho mais interessante saber o que vocês sentem que transportam para ela!

M:  Sempre achámos aborrecido fixarmo-nos num determinado estilo ou som, também nunca procurámos seguir tendências. Procuramos inspiração nas coisas que estão à nossa volta, desde um disco que nos tenha marcado, como um tema de um videojogo, as pessoas com que nos cruzamos, vivências.. o resultado é uma grande misturada.

D: Com o passar do tempo vamos inserindo mais elementos. Tem tudo a ver com as coisas que vamos descobrindo e ao mesmo tempo queremos incorporar. Por vezes apetecia-me ter 5 bandas e poder tocar coisas diferentes em cada uma delas.. Mas assim tendo uma, podemos sempre introduzir tudo aquilo que poderíamos usar em outras. No inicio o lado Dubstep estava mais presente também devido ao aparecimento do género no Reino Unido e que o Mushug viria a mostrar-me, já que eu na altura não conhecia (2006 ou 2007?), havia muita pica por nos identificarmos com isso. Com o tempo e com a própria mutação do estilo, a pica foi desaparecendo e outros estilos foram ganhando peso. Hoje temos mais Rock e Folk à mistura também, e isso acaba por se notar no resultado final, as colaborações, aliadas a isso, tornam o som mais melódico e não tão percussivo como anteriormente.


Vocês já estiveram um pouco por todo o lado, a pergunta que faço quase sempre é: sentem que o party people tem grandes diferenças?

M: Sim, os públicos são bastante diferentes. E a reacção acaba por ser sempre imprevisível, tanto podes ter público caloroso de um sítio à partida mais frio como o contrário.

D: Eheh... era bom! Não passámos da Europa e fomos agora ao Quénia.


O que sentem que é importante mudar em Portugal para as coisas resultarem melhor no campo cultural e artístico?

M: Acima de tudo é necessário que quem está a gerir este país, dê a importância à Cultura e às artes que ela merece. Também falta haver maior incentivo e aposta em artistas nacionais, seja em qual for o campo. Por exemplo, numa altura em que se faz tanta música boa em Portugal, não percebo a pequena quantidade de nomes nacionais em determinados eventos. No entanto em alguns canais tem vindo a mudar aos poucos. Também me choca um pouco a falta de informação e a maneira como facilmente se desvaloriza o que é feito neste país.

D: Talvez haver apoios e não acabarem com um Ministério da Cultura. Pedem-nos para dar valor ao que é nosso e criticam quem não canta em português, mas depois quem nos devia dar apoio acaba por não o fazer. Sobram aqueles que sem meios vão querendo fazer algo, sejam, privados, pessoas em instituições publicas com gosto, ideias e vontade mas com budgets limitados ou simplesmente pessoas que por si tentam fazer algo e conseguem. Faltam também algumas empresas com poder financeiro que paguem decentemente a quem passa horas e horas a trabalhar (por vezes em regime extra laboral) em prol de algo que no fim vai dar visibilidade a quem organiza, embora aqui neste aspecto é sempre delicado pois muitas não têm realmente capacidade e simplesmente querem fazer algo maior que as suas capacidades, e aí também dou valor, quando a coisa é sincera.


Uma das aventuras mais recentes foi a ida a Nairobi com Pedro Coquenão (Batida), no âmbito do projecto “10 Cities” comissariado pelo Goethe Insitute! Como surgiu o convite?

D: Na altura em que estávamos a fazer o álbum, resolvemos convidar a Sasha Pereira dos Jahcoozi para participar num tema. Nessa fase e numa troca de mails, ela falou-nos do projecto, e que há 2 anos tinham feito este projecto entre Berlim e Nairobi (com Modeselektor, Jahcoozi, Teichmann, Ukoo Flani, Just a Band...) e que para este ano estavam a falar com produtores "tugas" para saber da disponibilidade para participar num evento entre 5 cidades europeias e 5 cidades africanas. Nós dissemos que sim, e ela meteu-nos na "base de dados" deles de cenas "tugas". Já depois disso viemos a saber que o Pedro Coquenão, sendo o curador português, também nos tinha metido na lista juntamente com outros. Depois disso foi uma selecção do Goethe Institute, que tinha a ver com gostos deles e disponibilidade dos músicos de cá. Nós tivemos a disponibilidade, o maior gosto em fazer parte do projecto e o agradecimento por terem-nos convidado.



Foto por Lukkas

 

Como descrevem a quinzena que lá passaram? O que fizeram?

M: Foram dias bastantes intensivos, em que tivemos a oportunidade de trabalhar e trocar ideias com muitos instrumentistas, vocalistas e produtores locais. Foi bastante interessante partilhar histórias com a gente local, até tivemos direito a uma sessão com um músico de Banga. Também demos um concerto num armazém, onde tocámos algumas colaborações feitas durante o evento, uma das quais com Alai K dos Ukoo Flani, Oren dos Jahcoozi e Mpula de Batida (os nossos colegas de casa, curiosamente) em palco. 

D: Foi estar em África sem ser visto como turista, e isso foi uma experiência logo diferente. Depois, foram 2 semanas só a conhecer malta de diferentesbackgrounds, desde Hip Hop a cenas tradicionais. Uma casa com a porta aberta onde entravam pessoas e pessoas, onde num momento estávamos a fazer uma malha para club e na hora seguinte a gravar instrumentos tradicionais e a conhecer mais sobre os mesmos. Foi também muito bom partilhar o palco com o Alai, Oren e Pedro, já que, como o meu irmão disse, foram nossos "house mates" e a onda nessas 2 semanas foi excelente lá em casa.


O que retiveram desta experiência?

M: Fizemos bastantes amigos. Foi uma enorme injecção de conhecimento, onde ficámos a conhecer parte da enorme riqueza artística e cultural de Nairobi e alguns costumes, assim como palavrões em swahili. Também fiquei com a ideia de que alguns ritmos lisboetas estão bastante próximos dos quenianos e que os músicos são muito open minded.

D: Não achar que em África vais ser o senhor que leva a tecnologia e a novidade. Fui para lá achar isso e no 2.º dia ou 3.º dia estava a levar um baile do Billy dos Just a Band e do seu disco externo com centenas de mp3 de tudo e mais alguma coisa que ainda não tinha ouvido, nos mais variados estilos.. A abertura que eles têm em fazer cenas é imensa.


Sei que há-de sair uma compilação que resulta desse projecto, já sabem quando?

D: Ainda não sabemos data exacta, mas será em 2014.


Outra aventura é o vosso álbum, “Oito”, como surgiu a oportunidade de editarem pela britânica Senseless Records?

D: Já conhecíamos a editora pois tínhamos editado um tema (um remix de uma música do DeVille com a nossa portuguesa Violet).  Depois, apetecia-nos editar lá fora. Enviámos uns mails para algumas labels e recebemos o convite deles logo na hora. Como nos deram valor e mostraram abertura para editar nos formatos que pretendíamos e investir bastante em promoção, acabou por ser tudo muito simples.




OUVIR: Octa Push - Françoise Hardy ft. Alex Klimovitsky (Radio Edit)


A amostra deste álbum que está disponível de momento é a faixa “Françoise Hardy”. Porquê este nome e que tipo de indicações deram aos criadores do vídeo, Ivo Sousa & Stefano Ottaviano?

M: O nome surgiu depois de um bloqueio criativo que tivemos no estúdio, enquanto gravávamos esta faixa. Bloqueio esse que acabou quando o Alex se inspirou na figura da cantora que estava presente na capa de um disco de vinil que tínhamos no barraco.

D: Em relação ao video, a única indicação que demos foi que queríamos algo diferente que envolvesse um lado mais artístico, que utilizasse ilustração ou técnicas diferentes. 
Se tens a possibilidade de trabalhar com pessoas extremamente criativas, a única coisa que podes fazer é dar-lhes a liberdade para desenvolver o trabalho delas. O resultado é muito bom. Estamos muito contentes e agradecidos ao Ivo, Stefano e ao resto da equipa. Ahh! já agora.. nenhum coelho foi maltratado na produção do video.

 

 

Vão estar agora a 21 de Junho na festa de lançamento do vosso álbum no MUSICBOX e a 19 de Julho no SBSR, como adaptam o vossa actuação (live) a um clube ou festival?

D: Ao vivo tocamos com bateria, samplers e no dia 21 vamos estrear uma componente video. Vamos levar o Alex que canta em 3 músicas do álbum e que ao vivo ainda canta em mais 2. Como estamos em modo álbum, vamos tocar quase todas, ou seja, fica pouco espaço para tocar coisas mais antigas e o conceito muda um bocado, pois temos mais temas em formato canção (apesar de dançáveis) e não tanto com estruturas mais viradas para pista. Se as coisas correrem como temos estado a ensaiar, vai ser bonito!

 

 

Que artistas nacionais e/ou internacionais vos têm entusiasmado?

M: Nigga Fox, Dengue Dengue Dengue, Mount Kimbie, Quasimoto, Yong Yong, The Knife, RP Boo.

D: Ultimamente, (ainda) viciado em Egyptian Hip Hop, Owiny Sigoma Band, Tame Impala, Mount Kimbie, Bonobo, The Knife, D'Alva, Orelha Negra, Dead Combo, Voxels.


O ócio não é convosco, por isso, o que vai acontecer nos próximos tempos?

M: Temos umas músicas por acabar e umas datas por anunciar!

D: Esta vai ser profunda.. "Tocar e fazer som". Hein? e no plano pessoal férias! Preciso de férias!

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