Primavera: Um Novo Amor

Señor Pelota
Promotor de música avançada, DJ e anfitrião do programa "Mutante", na Antena 3, Señor Pelota é o repórter de festivais perfeito, já que disso percebe ele. Desta feita rumou ao Norte em direcção ao Primavera Sound e, após uns dias a recuperar e a digerir a informação, aqui fica o seu testemunho:



Se houve quem dissesse — “Não precisávamos de mais um festival, já tínhamos tantos. Ainda por cima importado aos espanhóis...” — a verdade é só uma: foi provavelmente o melhor festival a que já assisti em Portugal. O mais completo e, diria até, quase perfeito.

Quem me conhece sabe que sou um moço rodado nestas andanças, e gosto! Em Portugal fui, desde finais de 90s até à data, coleccionando um pouco de tudo na caderneta, no que toca a eventos de música. E como por aqui os gostos são bem variados, estes vão do Neptunos (1997) até ao Milhões de Festa (2012), passando pelo Sudoeste, Alive, Boom, NeoPop, Músicas do Mundo, Creamfileds, Super Bock, Avante, Paredes de Coura, e mais um par de botas pelo meio. Lá fora tive já também direito a uma boa dose: 3 edições do Sonar, um memorável Benicassim (2004) e o grande Glastonbury (2008). A alguns fui em lazer, a outros em trabalho, tendo-me cada um marcado à sua maneira. O cartaz, o local, o ambiente, as pessoas: estas variáveis formam um todo, e é disso que quero hoje falar.

Apesar do namoro com o Primavera Sound ter começado nos primórdios do evento, em Barcelona (cidade que frequentei bastante na primeira metade dos anos 2000) foi finalmente na segunda edição deste festival na Invicta que percebi não poder adiar mais a questão... e em boa hora! Mas vamos por partes:

 

 

O Espaço




O parque da cidade é o sitio perfeito para receber um evento deste género: é verde, amplo, tem anfiteatros naturais inteligentemente utilizados para localizar os diferentes palcos, e é temperado com vegetação variada, um lago e a vista do mar ao longe. Tudo isto quase no coração do Porto, que mais se pode pedir?!

 

 

A Organização





Ficam aqui os meus sinceros parabéns às entidades responsáveis pelo evento — Pic-nic, Ritmos e Primavera Sound — já que, à media que fui descobrindo o festival, tudo parecia fazer perfeito sentido, a começar (como seria de esperar, ou não...) pela entrada: depois de ver um parque cheio de bicicletas e com vigilância 24h(!), foi com muito agrado que não esperei mais de 10m (em hora de ponta do 1º dia) para tocar bilhete por pulseira.

Depois de entrar facilmente, vi a zona das comidas com muita variedade (bem mais do que o costume) onde não posso deixar de destacar as famosas sandes de pernil e queijo amanteigado do Guedes (casa típica do Porto, havia mais). De seguida passei por uma feira com 3 bancas de discos, outras tantas de t-shirts, óculos escuros vintage — tudo coisas perigosas — onde tentei não gastar todo o meu dinheiro (mas acabei por falhar...) :)

Um festival só pode ser muito cool quando decide chamar Casa de Campo à zona VIP, onde para variar era tudo às claras, apenas separada do resto do recinto por uma pequena rede de 50cm de altura. Havia caixotes do lixo (com eco-ponto) em cada esquina e, para além disso, vi muita vezes as simpáticas voluntárias a apanharem os poucos copos que os mais "comodistas" atiravam para o chão. Não me recordo de ter estado num evento deste género e durante 3 dias não ter atirado lixo para o chão uma única vez que fosse — guardei sempre no bolso, juro!

 

 

A Publicidade no Recinto





Mais uma vez gostaria de dar os parabéns, desta feita às marcas envolvidas, e principalmente à Optimus, que soube estar presente sem massacrar e que se cingiu às estruturas, muitas delas em madeira e com uma estética muito agradável e adaptada ao Parque da Cidade. O facto de não haver publicidade sonora ou música de qualquer espécie durante os intervalos dos concertos faz toda a diferença, acreditem!

Os brindes também eram de bom gosto — o saco de pano da moda, mas que se abria e transformava numa manta para as pessoas se deitarem na relva (boa!) e, já que estamos na(o) Primavera, havia também coroas de flores verdadeiras para todos os gostos, e sem logos: incrível não é?! Até o vermelho das barracas da Super Bock estava bem camuflado com um verde tropa que se fundia com a paisagem, e é de louvar que finalmente tenhamos alternativa à cerveja light e à cidra num festival desta dimensão. Qual não é o meu espanto quando chego ao bar da SB e vejo vodka á venda (e ainda por cima Wyborowa)! Havia ainda uma selecção de vinhos que podiam inclusivamente ser bebidos em copos de vidro por mais um euro, podendo-se guardar o copo para voltar a encher: se me contassem não acreditava! E tudo isto leva-me às pessoas que por lá estiveram...

 

 

O Ambiente




É um facto que o recinto nunca esteve excessivamente lotado, e isso é bom, mas 25 mil pessoas por dia parece-me um número já bastante considerável. A média de idades andava entre os 25 e os 40, e com um factor em comum: publico conhecedor, que sabia ao que vinha, e realmente interessado em música. Muita dose de loucura — e da minha parte e dos meus também falo :) — mas sempre com uma sensação de respeito, entrega e envolvimento durante os concertos: tenho quase a certeza que ouvi grilos nas pausas e momentos mais intimistas dos concertos de James Blake ou de Dead Can Dance. Dentro do recinto vi também patos junto ao lago, pessoas a passear cães, ciclistas a rolar nas suas bikes.

 

 

A Música





Neste capitulo podia escrever outros tantos milhares de caracteres, mas começo por dizer que, além dos palcos principal (Optimus) e secundário (Super Bock), havia outros dois — o ATP (Festival All Tomorrow Parties) e o Pitchfork (conceituada revista de música) — que eram dedicados a projectos mais experimentais ou emergentes (à excepção de um ou outro nome consagrado menos óbvio). Parece-me lógico e de muito bom gosto entregar estes palcos a quem realmente percebe daquilo que interessa: a música. O cartaz era extenso demais para aqui enumerar tudo, mas vou passar em revista aquilo que vi e que mais me marcou.

As Breeders foram competentes qb, embora com alguma displicência, e preferia ter guardado a memória de as ver há 11 ou 12 anos no Pardise Garage. Dead Can Dance foi um ovni: não conhecia o suficiente, mas agarrou-me pela intensidade. Nick Cave... sem surpresas: um concerto gigante deste senhor a comandar uns Bad Seeds cada vez mais em forma, uma lição para os wanna be rockers. Por mim via-os todos os meses. James Blake foi magistral, adorei ouvir os temas novos, nota muito positiva. Daniel Johnston foi comovente.

Já os Swans são inacreditáveis: este machos maduros deram o concerto mais intenso do festival. Eu estava a uns 5 ou 7 metros do palco e ali fiquei colado durante hora e meia, levaram-me bem longe numa viagem de trance ruidoso. Os meu ouvidos estavam a precisar disto e não sabiam: foi daqueles concertos de barba rija que marcam uma vida. Os Blur entraram a matar e não pararam mais, com hits atras de hits. Competentes acima da média, a banda está muito coesa e Damon deu tudo o que tinha. Foi o momento Pop que levou à loucura colectiva do festival!

Metz são os novos Nirvana mas com mais músculo e menos melodia, é incrível o barulho (do bom) que 3 pessoas conseguem fazer: uma actuação contagiante ao vivo, durante a qual ganhei umas quantas nódoas negras e uma t-shirt nova. Glass Candy fizeram a festa electrónica de forma muito superior ao que tinha visto no Lux mas não fiquei para o fim, já que tinha à minha a espera os tais Fuck Buttons que, esses sim, entram mais na minha definição de electrónica: noise, techno, experimentalismo, 2 homens e 20 maquinas, que maravilha.... Os Paus, intensos como sempre, não sabem dar maus concertos. The Drones foi (mais) uma agradável surpresa com guitarras. Durante Explosions In The Sky, eu estava na terceira fila, e posso dizer que foi incrível a maneira como viajam entre ambientes com as suas guitarras, ora sónicas a explodir, ora doces e melancólicas: o concerto pecou apenas por ter o volume um pouco baixo.

Relativamente às Savages vou escrever o que me saiu a quente poucos minutos depois do concerto — "Foi provavelmente O concerto do Primavera... Os Liars que me perdoem mas tive de ir conhecer estas raparigas, e em boa hora o fiz! Nunca um nome foi tão bem escolhido para uma banda. Fui literalmente atropelado pela muralha sonora destas ladies de pelo nas ventas. Que força da natureza senhoras.... Obrigado!" Acrescento apenas que são sexy que até dói. Dan Deacon é um geek do bons, e apresentou um tresloucado punk electrónico com maquinaria pesada e dois bateristas possuídos, contagiante qb, tendo desencadeado um moche daqueles à teenager — as minhas pernas é que já me falhavam! The Magician, a quem cabiam as honras de fechar o festival, fez um DJ set óbvio e chegou a ser azeiteiro, mas mais uma vez a organização emendou a mão, e no próprio dia houve uma confirmação de ultima hora — Dj Coco, residente do Nitsa Club em Barcelona, mostrou como se faz a festa e, entre novidades da electrónica e clássicos do indie rock, chegou-se à frente com um set digno do final da festa, que acabou com o palco cheio de gente, confetis e garrafas de champanhe a explodir. Bonito!

 

 

Nota Final





Não posso dar um 10 em 10 pois acredito que se pode sempre melhorar o que já é bom, pelo que vou apontar as únicas situações negativas que registei: os taxis escasseiam na hora de ponta, à saída, e podia haver mais WCs, embora os que havia fossem dos verdadeiros e os tenha encontrado sempre em condições muito acima da media.

Para cúmulo da perfeição, estou habituado a ir a festivais no Norte de galochas e impermeável, e desta vez fui presenteado com sol e calor até á noite. Sendo assim Primavera, foi um prazer conhecer-te... Vou-te dar uma pontuação de 8½ à Fellini: até 2014!

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