18:00 até às 21:00
A natureza do gesto - Tiago Santos

A natureza do gesto - Tiago Santos

Exposição patente até 10 de Outubro. Terça a Sábado das 15h às 19h.


“- É curiosa a maneira como as coisas nascem do nada. Este caso parece que começou pelo facto de um chapéu ter voado.”. Dizem as primeiras linhas de um conto de James Hilton do qual, oportunamente, não recordo nenhuma outra.
Chamamos, talvez por hábito, acaso a todos os chapéus que voam; a todos os pequenos gestos que despoletam cadeias de acontecimentos que implicam escolhas. A palavra acaso poupa-nos à escuridão absoluta de vazio, implica errância e é fruto do medo de perdermos uma vida inteira por becos inexplicáveis, onde nada mais se pode achar senão o nada. E não é mau, nem sinónimo de escassez, se nos soubermos deleitar com os mais singelos prazeres. Há muito nada em tudo. No entanto, se aceitarmos que as coisas são assim, feitas de nada, não há entendidos em tudo e mais alguma coisa - sempre com respostas (sempre com as mesmas respostas) -, que nos valham. Vejamos o lado positivo: não é preciso ficar calado para dizer nada.
Na verdade, esse é um dos maiores encantos da pintura. E é por isso que a lambuzamos; e é por isso que escrevo este texto com a certeza de que no final da página, como sempre acontecerá, as palavras que lhe dedico escorregarão, oleosas, pelas telas e pelos papéis abaixo, devolvendo-os à sua natureza indizível.
Por culpa desta minha inclinação imagino que também as pinturas de Tiago Santos sejam consequência de um chapéu que tenha voado. Que tenha navegado pelos céus até se perder na paisagem, que lhe restou no olhar; ou que tenha aterrado na praia perto dos cães, depois das pessoas. Mas que decerto voou novamente já dentro do atelier, e o pintor de pincel em riste seguiu-o por entre folhas no chão e nas paredes, deixando-o ditar os gestos que se multiplicam e sobrepõem. Esse chapéu, que guia os olhos e as mãos, quando pousa revela estímulos e quando descola deixa problemas por resolver. Porque no atelier a paisagem é uma massa de tinta e o céu já não o é: tem a textura das paredes descascadas e pesa tanto como rochedos ancestrais. Mil tons de verde mastigam-se, numa fome que só para quem vê de longe se parece com vegetação. (As pinturas deviam cheirar-se, logo aí terminaria o sonho da representação do mundo). O nariz colado à superfície respira o hálito do ogre que habita as grutas tisnadas pelo carvão, pelo óleo e pelo diluente. Tudo junto tresanda a dias tristes. Onde se dá a beleza sem perversão?
Os lugares reconhecíveis nestas pinturas de Tiago Santos são lugares impenetráveis como muros. Não são janelas nem estão abertas para o exterior. E se o forem, estão viradas do avesso, para dentro, como as pinturas negras de Goya nas paredes de sua casa. E os corpos são fantasmas, reminiscências de um mundo consumido por um grande fogo. Transformados em luta (com as tintas e com a superfície), assumindo que ali as possibilidades são diferentes da vida. 
A nuvem branca que explode no céu, afinal é um rasgão no papel - a violência deixou restos de luz. A noite, o dia, a neve e o sol misturam-se numa pasta onde já nada disso interessa. E uma mancha numa paisagem é uma figura?" - Francisco Correia
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