MAC/CCB Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitetura
Praça do Império - Lisboa Ver website
Um espaço de artistas em Lisboa
Será possível imaginar um edifício de uma das zonas mais valorizadas de Lisboa totalmente ocupado por artistas? Entre 2006 e 2014, esta singularidade teve lugar no n.º 211 da Avenida da Liberdade, que, segundo aqueles que foram os seus inquilinos-artistas, curadores e visitantes frequentes, albergou uma experiência irrepetível no panorama da arte contemporânea da cidade.
Durante quase uma década, os quatro andares do edifício (propriedade do Banco Espírito Santo, fundado em 1869 e colapsado em 2014) acolheram várias dezenas de artistas, músicos e projetos curatoriais. A ocupação era gratuita e temporária, e assegurava condições de autonomia e flexibilidade que escapavam tanto aos modelos institucionais quanto às lógicas comerciais.
A história desta ocupação simultaneamente vital e vulnerável permite compreender o contexto cultural português, mas também o ciclo de crises e transformações económicas e políticas que atravessou o país e a Europa no início do século XXI. A crise financeira global de 2008–2009 e a Troika formada para implementar assistência económica entre 2011 e 2014 tiveram um forte impacto na cena artística através da imposição de cortes severos, implicando uma reconfiguração da política cultural e um agravamento das condições de habitação e trabalho. No mesmo período, as dificuldades económicas alimentaram também o surgimento de movimentos sociais, gerando manifestações de protesto que passaram pela Avenida da Liberdade, em Lisboa.
Ao longo de um processo que culminou na atual «financeirização das cidades», redefiniu-se a própria possibilidade de existência de comunidades artísticas no coração dos centros metropolitanos. Neste contexto adverso, a Avenida 211 foi como que uma dobra: um espaço onde se geraram novas formas de ação, conhecimento e experiência coletiva. Quando chegou ao fim, a cidade não era mais a mesma.
Esta exposição nasce da recolha e sistematização dos testemunhos e materiais dos artistas residentes. Construída como «arquivo vivo», reúne obras e fragmentos que remetem para exposições, colaborações e situações concretas. Não se propõe reconstituir vivências únicas, antes tornando visíveis os fluxos e conexões entre práticas, linguagens e artistas, assim como as colaborações entre gerações. A rede de confiança e de autogestão na base desta aventura teve um parceiro fundamental em António Bolota, engenheiro civil e artista já envolvido em projetos artísticos sem fins lucrativos.
Por outro lado, esta investigação revelou que a experiência da Avenida 211 ocorreu durante um período de transição, mesmo do ponto de vista tecnológico: do papel para o digital. Se se preservou pouco material em papel, também foi difícil recuperar parte do material digital, armazenado em discos rígidos antigos. Este é outro elemento que atesta a natureza espontânea e genuína da experiência, desprovida de qualquer intenção de autocelebração.
O percurso das salas é orientado por cinco possíveis sentidos da Avenida 211 que surgiram em diálogo com os artistas e na exploração do material: «Um espelho retrovisor», «Um atelier só para si», «Uma caixa de ressonância», «Um farol», «Do-It-Ourselves». Com esta organização, pretende-se apresentar não um passado congelado, mas sim uma rede viva de experiências, fluxos e intensidades que ainda inspira e interroga o presente.
A investigação foi desenvolvida por Giorgia Casara e Sara De Chiara, e a curadoria foi realizada por Nuria Enguita e Marta Mestre. André Maranha assinou a arquitetura, e Sofia Gonçalves o design.
Programa Públicos
◾ The Barber Shop apresenta Acid Communism de Mark Fisher
Sábado, 14 de março, das 15:30 às 18:00
Um dos projetos curatoriais que encontrou o seu espaço no n.º 211 da Avenida da Liberdade traz-nos uma sessão dedicada à publicação Acid Communism, do pensador britânico e autor do blog k-punk Mark Fisher. A curadora Margarida Mendes e os seus convidados refletem sobre formas de convivialidade efémera e a imaginação de condições alternativas de sobrevivência sociopolítica. A conversa é seguida de uma performance sonora por Polido.
Participação gratuita, mediante inscrição prévia através de formulário ou e-mail servico.educativo.museu@ccb.pt.
Datas / horários
Exposição temporária, de 25 de outubro de 2025 a 5 de abril de 2026 10:00 às 18:30 no Piso -1
Inauguração: 24 de outubro, 21h00 Entrada livre
Fonte: https://www.ccb.pt/evento/avenida-211/
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