Embaixada da República de Cabo Verde em Portugal
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BEYOND BOUNDARIES: A COLLECTIVE ODYSSEY
23 MAIO / 26 JULHO 2025
EXPOSIÇÃO COLETIVA INTERNACIONAL
No cerne de qualquer cartografia reside uma tensão latente: entre o traço que delimita e a matéria viva que insiste em transbordar. Beyond Boundaries. A Collective Odyssey ergue-se precisamente nesse terceiro espaço — simultaneamente físico e metafórico — qual território intersticial, onde a arte contemporânea africana se afirma como ato de insurgência estética, edificante da contra-narrativa visual face às fronteiras herdadas, e como potência de reconfiguração dos horizontes sensíveis do mundo.
Nesta exposição reúne-se uma constelação notável de artistas cujas práticas diversas e singulares testemunham a vitalidade, a complexidade e o vigor de um continente em permanente reinvenção de si. Disposta em dois núcleos — no Museu da Água - Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos e no Centro Cultural Cabo Verde — a mostra propõe uma travessia visual e sensorial que desafia a rigidez do pensamento hegemónico inveterado e evoca a memória como gesto insurgente.
Ao questionar de forma profunda o conceito de “fronteira” — seja esta territorial, identitária, disciplinar ou epistemológica — o gesto curatorial convoca um corpo de obras que desmontam as narrativas unívocas, desconstroem os mapas coloniais e devolvem centralidade à multiplicidade de vozes, histórias e formas que compõem o caleidoscópio da criação africana contemporânea.
Trata-se, pois, de uma odisseia coletiva, não apenas no sentido literal da travessia partilhada, mas enquanto transferência do centro — da norma para a periferia, do cânone para o gesto subversivo, da memória imposta para a reinvenção crítica do arquivo. Cada obra patente opera como um fragmento de um palimpsesto maior, onde a matéria têxtil, pictórica, audível e visual é convocada não apenas como suporte, mas como testemunho.
A exposição desenha-se, pois, em torno de três eixos curatoriais fundamentais: a materialidade como discurso, a figuração como resistência e a memória como gesto político.
A materialidade assume um papel central, que desafia os binarismos entre arte e artesanato, entre técnica e conceito, entre objeto e pensamento. A matéria transporta em si a violência da história e a possibilidade da reconfiguração. A reutilização e a reciclagem não são meramente processos técnicos, são antes estratégias de subversão simbólica e de emancipação estética e narrativa.A figuração, por sua vez, emerge como gesto de restituição do corpo — não mais como objeto de exotização e fetichização, mas como sujeito pleno, inscrito na sua dignidade e complexidade. Assiste-se a uma reapropriação crítica da imagem, onde o corpo negro deixa de ser projeção do olhar colonial para se tornar protagonista de uma narrativa por contar — íntima, política, cultural, espiritual.
Por fim, a memória — não como passado cristalizado, mas como campo vivo de disputa e reinterpretação — percorre transversalmente toda a exposição. Através de uma reapropriação consciente de arquivos materiais e simbólicos, evoca-se a possibilidade de reinscrição de cosmologias silenciadas, não como gesto de nostalgia, mas como ato de reativação crítica. Os padrões têxteis tornam-se insígnias de pertença, a corporalidade inscreve-se como arquivo vivo, e a prática artística emerge como ferramenta de reinscrição histórica. Neste gesto, a produção artística contemporânea africana patente afirma-se como espaço de enunciação autónoma, de cura simbólica e de restituição epistemológica — reivindicando o direito a imaginar, narrar e representar um mundo por vir e um tempo por escrever.
Graça Rodrigues
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