Brilha, enquanto vive não é uma exposição sobre teatro. Ainda assim, pode ser lida à luz da ideia de que tudo reside na relação entre quem age e quem observa, num espaço partilhado onde algo acontece – princípio muito bem trabalhado por Peter Brook.
A lógica do “como se”, própria do espaço da ficção, ajuda-nos a compreender o mundo e a agir nele. Ao desprender-se da verdade factual, o teatro — e a ficção em sentido mais amplo — encontra na invenção, na imaginação, na mentira ou na fantasia, múltiplas formas de revelação: maiores ou menores, exteriores e interiores.
Na galeria da Brotéria, o espaço é habitado por uma voz que desenha princípios imaginários, acompanhada por estruturas provisórias, ruínas de cenários e vestígios dos seus protagonistas. Em diferentes escalas, ensaia-se a origem de uma possível dramaturgia — uma dramaturgia instável, em construção, que parece pertencer a todo o lado e a lado nenhum. João Timóteo e Xavier Ovídio exploram a atmosfera da narração e das cenografias impossíveis, convocando o visitante para um lugar entre a escuta, a imaginação e a presença.
Peter Brook (1925–2022), encenador de teatro e cinema, revolucionou o pensamento teatral ao propor uma passagem da ideia de «espetáculo» para uma simplicidade radical da encenação, colocando o foco no potencial da performance artística — concretamente na relação entre ator e público — e reconhecendo a força interior da experiência humana na exploração dos seus temas cruciais.
A própria palavra teatro deriva do grego theaomai (θεάομαι): olhar com atenção, perceber, contemplar. Não se trata apenas de ver, no sentido comum, mas de viver uma experiência intensa, envolvente e inquiridora, que procura descobrir significados mais profundos — um ver que envolve a inteligência, a sensibilidade e a imaginação.
É nesse lugar que brilha, enquanto vive se instala: nesse encantamento humano pela ficção, nessa quase necessidade de contar e escutar estórias como forma de organizar e ampliar a experiência quotidiana para, mais que vivermos sujeitos às circunstâncias externas, possamos ser personagens principais das nossas próprias vidas.
Brotéria
Segunda a sábado, das 10h30 às 18h
No dia 25 de fevereiro, às 19 horas, realiza-se uma conversa com Xavier Ovídio, João Timóteo, Djaimilia Pereira de Almeida, Catarina Ricciardi e P. João Sarmento
Fonte: https://agendalx.pt/events/event/xavier-ovidio-e-joao-timoteo/