Uma cenógrafa e um dramaturgo entram num palco. Dentro do cenário do Misantropo, que era o espetáculo que estavam a fazer, percebem que podem falar e não ser ouvidos. Percebem que a ficção é um ótimo contexto para dizer algumas coisas. Percebem que os livros fazem mais do que ocupar espaço, percebem que nos livros a história já vinha escrita. Procuram vestígios das suas biografias, tentam ler as palavras dos outros sem as tornar suas. Tentam perceber o que correu mal, e tentam perceber porque razão estão uma cenógrafa e um dramaturgo num palco.
Um espetáculo que propõe uma reflexão acerca do suicídio e da dificuldade de falar sobre saúde mental, através das vozes de escritoras, personagens e dos próprios. O palco torna-se um espaço onde se leva ao limite a autoficção e onde qualquer frase é por defeito uma confissão.
As palavras saem como que de lado — escorregam pelas costuras da ficção e vão bater no chão sem barulho, ficam lá, imóveis, como pássaros mortos ou cartas abertas. É que há um tempo antes da frase, um tempo onde ainda se escolhe se se fala ou se se engole. Aqui escolhem falar. Talvez tenham começado sem querer. Dizem coisas que não são deles, dizem coisas que são deles mas parecem lidas— a voz fica espessa de outras vozes. Livros dentro da boca. Escritoras a empurrar frases para tentarem falar sobre o que não se consegue dizer. Não há garantias, eles não sabem o que elas doem, chegam e falam com quem estiver.
No palco, o corpo treme ligeiramente.
No palco, as palavras já não lhes pertencem.
No palco, há um momento em que já não é preciso saber se ainda estamos na verdade ou já seguimos em frente.
Ficha artística e técnica
Criação e interpretação: Marta Carreiras e Martim Rodrigues
Apoio à encenação: Paula Diogo
Música e interpretação: Vicente Costa
Desenho de luz e direção técnica: Zé Rui
Consultoria em psicologia: Joana Carreiras
Fotografia e registo de vídeo: Miguel Ribeiro Fernandes
Direção de produção: Maria Folque Guimarães
Grupo de adolescentes da equipa: Kenya, Raven, Ricardo;
Grupo de adolescentes: Ana, António, Bruno, Filipe, Gabriela, Joana, Lara, Lucas, Margarida, Maria Inês e Maya
Mentoria: Hugo Cruz
Olhar externo: Claudia Galhós
Coordenação Municípios associados Artemrede: João Santos (Alcobaça) e Cristina Amaro (Oeiras)
Coordenação equipa Artemrede: Catarina Serrazina e Clara Antunes
Coprodução: Artemrede, em associação com os Municípios de Alcobaça, Almada, Barreiro, Oeiras e Sobral de Monte Agraço (Portugal) e Művészetek Völgye - Festival Valley of Arts (Hungria)
Co-financiamento: programa Europa Criativa da União Europeia, no âmbito do projeto PRODUCTION3
Horário da bilheteira: 3ª feira a sábado, das 14:30h às 19:30h
Tel.: 210 888 900
Fonte: https://www.cm-moita.pt/conhecer/agenda-de-eventos/evento/teatro-campanula-de-vidro-de-marta-carreiras-e-martim-rodrigues