Como um livro que parece emergir das ruínas da razão. “O Último Livro de Urizen”, de Carlos Nuno Granja, pertence a uma linhagem rara da poesia visionária que ousa reabrir a ferida cosmológica que William Blake infligiu ao mundo moderno. O título invoca o demiurgo sombrio de Blake — o tirano da geometria, o arquiteto cego do mundo caído —, mas o Urizen de Granja não é uma homenagem: é um combate. É um livro escrito contra os deuses da ordem, uma cosmogonia fragmentária onde a voz poética oscila entre o lamento e a revelação, entre o profético e o profano.
Organizado em cinco partes — Poética do colapso, Cartografias do desejo, Na gramática dos abismos, Arquétipos de sangue e Cartas do exílio —, o livro avança como um tratado místico do desmoronamento. O colapso não é apenas cósmico: é também linguístico, existencial, espiritual. Cada poema desmonta uma estrutura, questiona o limite da mente racional que Blake chamava Urizen. “Sobre os poderes da mente nasce um rascunho mágico”, escreve o autor — “um plano estratégico de indecisões”. Essa indecisão é o espaço onde a poesia se forma: um território instável, mas fértil, onde o pensamento e o espanto se tocam.
A voz de Granja carrega a densidade de um poeta-filósofo; a sua “poética do colapso” invoca um desespero que não abdica da luz e uma ressonância profética que faz eco de Saint-John Perse. Mas o que o distingue é o sentido de simultaneidade: o arcaico e o contemporâneo coexistem no mesmo verso, como se a era digital e a era dos mitos respirassem no mesmo corpo verbal. Em “Na gramática dos abismos”, o corpo torna-se sintaxe, o amor uma fórmula química, e a história uma febre queimada pelo delírio do progresso. “E agora quem me salva deste estado febril?”, pergunta o poeta, num grito que é tanto biológico quanto metafísico.
A influência de Blake é moral antes de ser estética. Urizen, o deus da razão tirânica, é aqui metáfora da civilização que devorou a sua própria imaginação. Contra ele, o poeta ergue um contra-mundo de desejo, de sangue e de exílio — um cosmos em combustão, onde o sagrado se redescobre na matéria, no corpo, na ferida. O vocabulário é simultaneamente científico e bíblico: “fissão nuclear”, “cartografia das lâminas”, “arquétipos de sangue”. Cada poema é um laboratório de transmutação, uma tentativa de transformar a violência da existência em claridade.
Se a primeira secção encena a implosão do mundo, as últimas procuram reconstruir o que resta — por via erótica, simbólica e espiritual. Em Cartografias do desejo, o amor é osmose e redenção: “soluto-solvente, o amor na nossa resolução”. Em Arquétipos de sangue, a figura materna regressa como mito e memória — símbolo de resistência, canto de libertação, herança de todos os corpos subjugados. E em Cartas do exílio, a voz do poeta regressa à origem, exilada da própria linguagem, como se o acto de escrever fosse o último gesto de sobrevivência.
“O Último Livro de Urizen” confirma Carlos Nuno Granja como uma das vozes mais ousadas inquietas da poesia portuguesa contemporânea — um autor que confronta a teologia com a física, o mito com a mutação, a palavra com o abismo. É um livro escrito contra a frieza geométrica do mundo, um testamento anti-urizénico em que a poesia se torna o derradeiro refúgio da energia humana — ou, como diria Blake, “o corpo da luz”.
18h30
MUSEU JÚLIO DINIS
__
Entrada livre
Fonte: https://cultura.cm-ovar.pt/pt/agenda/145486/apresentacao-do-livro-o-ultimo-livro-de-urizen-de-carlos-nuno-granja.aspx