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Foto: Wiseguy_71 (cc) Flickr

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Paulo Moreiras

Os Tremoços e o Amor

ilustração Fitacola
Fitacola

 

Fiéis companheiros em tardes quentes, ricos em fibras e grande fonte de proteínas os tremoços (Lupinus albus L.) são uma presença assídua nas nossas mesas desde tempos longínquos. Para alguns filósofos gregos esta leguminosa era o seu alimento preferido. Conta-se que Protógenes, pintor grego do século IV a. C., trabalhou durante sete anos numa pintura alimentando-se apenas de tremoços para que nada mais interferisse com o seu génio criativo. Até nas comédias romanas os tremoços tinham o seu papel, sendo utilizados em cena para simbolizar o dinheiro. A sua reputação era tão grande que os heróis e generais romanos costumavam oferecer tremoços ao povo em sinal de gratidão.

Contudo uma das suas utilizações mais curiosas está associada a um ritual namoradeiro, numa espécie de declaração amorosa, que existiu em Portugal em meados do século XIX, na região centro, mais precisamente em Vermoil, freguesia do concelho de Pombal, tal como registado por J. e Silva no Almanach de Lembranças Luso-Brazileiro para o Anno de 1864.

Escreveu este colaborador que as mães costumavam levar as filhas a três festas religiosas existentes na freguesia, Conceição, Espírito Santo e Bodo de Vermoil, quando as pretendiam casar. Durante a tarde as raparigas apareciam no terreiro do arraial todas aperaltadas e garridas. Procuravam então o rapaz desejado e convidavam-no para ir à venda beber um copo de vinho, sempre acompanhados pela mãe da cachopa.

Antes de entrar na venda as raparigas compravam dez réis de tremoços, que gentilmente acondicionavam num lenço. Depois de bebido o vinho, provavelmente para ganhar coragem, a rapariga dirigia-se ao seu pretendente dizendo “Dá a mim, dou a ti” e apresentando o seu lenço com tremoços, ao que o rapaz, se a proposta fosse do seu agrado, deveria responder “Dou a ti”, abrindo a jaleca e exibindo um bolso forrado igualmente com tremoços. Para selarem os termos deste pacto amoroso cada um teria que partilhar os tremoços de cada um. Elas retiravam os tremoços do seu bolso e eles do seu guardanapo. Para finalizar, refere o autor que após a missa era habitual serem anunciados novos matrimónios na freguesia.

Quem diria que os tremoços tinham outrora desempenhado um papel tão importante no amor.


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