Metrónomo — Janeiro e Fevereiro de 2015

João Rocha Pereira


Já o tinha referido neste artigo escrito há pouco mais de dois meses: 2014, tal como os anos anteriores, trouxe-nos muita e óptima música feita em Portugal. Mas ainda mais do que isso, reforçou esta agradável tendência segundo a qual parecem não existir grandes obstáculos à veia criativa nacional. De facto, olhando com um pouco de atenção seja para os meses que se avizinham, são muitos os projectos que prometem continuar a entusiasmar-nos no futuro.

É com essa óptima perspectiva que me lanço assim a este desafio aqui na Viral. O objectivo desta rubrica é listar regularmente os lançamentos portugueses que me tenham captado de especial modo o ouvido, sem grandes restrições de género ou tipo — cabem aqui longas-durações, EP's, discos ao vivo ou quaisquer outros registos que o justifiquem. E porque não se pretende de forma alguma limitar a criatividade, o número de registos aqui listados é completamente variável a cada mês ou par de meses.

Comece-se então com o início do ano.

 

 

∆TILLL∆ — V (Bisnaga Records)

 

 

Existe melhor forma de inaugurar esta rubrica do que com um cheirinho a trevas e escuridão? Claro que não, e se dúvidas existissem, Miguel Béco de Almeida não lhes dá qualquer margem. Já não é de agora que o conhecemos enquanto ∆TILLL∆ nos domínios da electrónica sombria – até porque V é, como sugerido, o quinto capítulo numa saga de lançamentos iniciados já há cerca de três anos. Mas embora as qualidades lhe fossem devidamente reconhecidas e apreciadas, V é o disco onde escutamos uma maturidade e consistência que lhe permite subir uma data de degraus de uma só vez.

Há uma data de adjectivos que podem ser perfeitamente empregues para descrever V. É inquietante, sombrio, industrial, implacável, e é tantos outros. Ouçam-se os crescendos ofegantes em Acreção, malha que abre o disco, em particular na sua segunda metade que em tudo se assemelha a uma perseguição pelos bosques numa noite sem luar. Escute-se o mercenário caos de Ritos Fúnebres capaz de deixar arrepios na espinha, como se enfrentássemos um Balrog nas profundezas da terra. E claro destaque-se Homem, a única canção vocalizada do disco com António Costa dos Ermo a expressar todo o seu desespero e frustração – quase lhe conseguimos sentir os dentes a ranger. Não são poucas as vezes em que V quase nos deixa com o coração nas mãos, e parece ter todo o prazer em fazê-lo. Pensam que estão seguros? Deixem que ∆TILLL∆ vos conduza por entre as sombras. A Judy Garland diria ao cãozinho “I have a feeling we're not in Kansas anymore”.

 


 


Danças Ocultas — Arco EP (Uguru)

 

 

Chamem-lhe música tradicional, do mundo, folclórica. Enfim, chamem-lhe o que quiserem, mas isso não será desculpa para passar ao lado dos Danças Ocultas – no final de contas, o quarteto já anda nestas anDanças há mais de vinte anos. E num país em que o uso da concertina ou acórdeão se encontra mais associado ao exotismo dos coretos municipais ou envergado num qualquer grupo pimba em festas em honra de Nossa Senhora, cabe a Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel prestar ao instrumento uma homenagem mais evoluída, explorando em pleno as capacidades das suas sonoridades.

O que primeiro se manifesta como curiosidade rapidamente se torna numa constatação em quão agradável soa o que escutamos. Mas nada disto é grande surpresa se considerarmos que para trás encontram-se já cinco discos de longa duração. Arco é a primeira aventura no domínio dos EP's, mas essa não é a única novidade: a acompanhá-los está a brasileira Dom La Lena – que já cruzara caminhos com o grupo em digressões passadas – e que aqui empresta as suas vozes (em duas canções) e o violoncelo. E são quatro as canções que compõem o EP, onde o pranto das concertinas nos transmite uma aura tão melancólica quanto irresistível – e tudo isto sem que torne banal o timbre do choro dos foles. Note-se, por exemplo, como ora nos guia para uma qualquer paisagem mediterrânea à beira-mar em O Diabo Tocador, ora nos embrulha no slow em negrume que se faz ouvir em LuzAzul. Precisamos de mais concertinas no nosso dia-a-dia, claramente.




 


Desidério Lázaro – Subtractive Colors


(Sintoma Records)

 

 

Para quem presta a mínima atenção que seja ao panorama do jazz nacional, Desidério Lázaro é um nome que já há bastante tempo deixa a sua presença bem vincada. Com o enorme talento e mestria do saxofone já sobejamente reconhecidos por via das mais diversas colaborações em que o encontramos, Subtractive Colors é o nome do seu quarto disco de originais enquanto frontman.

Não que faça a festa sozinho, claro — a prová-lo está, entre outros, o fantástico solo de bateria de Luís Candeias que enlouquece os ouvidos em Absence of White. Integrando um ilustre sexteto de formação invulgar (onde se faz acompanhar, por exemplo, dos dois contrabaixos de João Hasselberg e Mário Franco), Subtractive Colors apresenta-nos uma união perfeita entre Desidério, o intérprete, e Desidério, o compositor. Recheado de óptimas melodias, a diversidade das sonoridades guia-nos ao longo dos mais diversos estados de alma. Com aparente facilidade, consegue surpreender a cada esquina; a título de exemplo, ouçam-se as vozes que encontramos na última canção (as únicas em todo o disco) quando já não as esperaríamos ouvir, numa explosão de groove orelhudo e cativante. Um disco para quem adora o género, e para quem está (ou quer) dar os primeiros passos na sua apreciação. E espreitando os títulos até podemos encontrar referências a diversas sagas Nintendo, tornando tudo ainda melhor.

 


 


Equations — Hightower (Lovers and Lollypops)

 

 

Se estiveram a hibernar numa cave durante o último ano e tal e por acaso forem parar a um concerto dos Equations, muitas serão as perguntas que vos saltarão à cabeça. “Porque é que o Bruno Martins está rodeado de sintetizadores? Que prog é este que sai das colunas?”, dirão uns. “Onde está o caos do costume? E o que fizeram às time signatures estonteantes?” perguntarão outros. Ultrajados por nenhuma canção sequer de Frozen Caravels constar no alinhamento, equacionarão (trocadilho intencional) pedir o dinheiro de volta e revogar por completo o apreço que tinham por aqueles cinco rapazes.

Mas não o façam, a sério. Serve esta introdução para enfatizar o seguinte: os Equations não estão só diferentes, estão completamente diferentes. E se já tínhamos todos os motivos para aguardar com expectativa o segundo disco, Hightower quase nos obriga a pedir desculpa sobre quaisquer dúvidas que pudessemos um dia ter tido sobre o seu desenlace. Desde o arranque cheio de pujança de Afterlights, passando pelos loucos sintetizadores em A Curious Empire ou pela apoteose final de Sssuuunnn, Hightower é um orgasmo sideral sob a forma de rock progressivo, sofisticado e irresistível. É uma incrível e corajosa viagem ao desconhecido, metafórico e literal: não serão muitas as bandas que ousem mudar por completo o seu estilo; serão menos ainda as que o consigam fazer bem. Mais que um sucesso, é um portento de disco. É tão bom haver bandas assim.

 


 


Old Yellow Jack — Magnus

 

 

Não é novidade nenhuma que, nos últimos anos, temos assistido a uma espécie de revival do rock psicadélico no qual dezenas de bandas tentam emular e, à sua maneira, acrescentar valor (entenda-se, tornar actual) toda essa trip que se fez sentir de especial forma pela década de setenta. Também em Portugal esse renascimento se sentiu a diversos níveis, seja pelas bandas que vão emergindo ou até pela aposta em certos concertos e festivais (hey Reverence Valada, obrigado por voltares em 2015).

Magnus é o EP de estreia dos Old Yellow Jack, quatro rapazes lisboetas que aqui exclamam o seu “nós também” e nos procuram oferecer a sua visão caleidoscópica do mundo. Desengane-se quem julga que vieram tentar reinventar o género: sem vergonha nenhuma, assumem a sua absoluta adoração pelas guitarras temperadas a todos aqueles pedais de delay e fuzz, as linhas de baixo bem firmes e um oceano de efeitos e vozes crípticas e etéreas. Fazem-no, no entanto, com um assinalável bom gosto (como de certa forma nos promete o cenário sci-fi próprio de B-Movie que adorna a capa) — ouça-se por exemplo a bonita melodia que sustenta Luanda (a melhor canção das cinco) ou a segunda metade bem alucinada de Two Lightbulbs in a Skull, já a fechar o EP. Mais do que suficiente para lhes ser dada a oportunidade e aguardar o que o futuro lhes trará. Se discordarem, bom, sempre há disco novo de Tame Impala algures este ano. 

 


 


The Sunflowers  —  Ghosts, Witches and PB&Js EP

 

 

Devem haver poucas coisas mais entusiasmantes do que aquele sentimento de pegar numa guitarra desafinada, aprender uns quaisquer acordes na net e combinar com um amigo que tenha uma bateria uma jam em casa dele. Claro que em pouco tempo o sonho de sermos a próxima sensação de youtube desaparece, seja porque temos aulas amanhã ou porque ficámos com calos nas mãos. Mas felizmente, há quem saiba perfeitamente que - mesmo que o neguemos - todos precisamos de garage rock nas nossas vidas. E os Sunflowers estão cá para o afirmar e nos conquistar. 

Ghosts, Witches and PB&Js é o segundo EP do duo composto por Carlos de Jesus e Carolina Brandão, a sequela de uma estreia no ano passado que já prometia uma data de coisas boas. E coisas boas é o que encontramos aqui, mais precisamente cinco delas. Cinco canções, todas com uma duração inferior a três minutos, todas com aquele irresistível travo lo-fi repleto de imperfeições com uma muy charmosa produção mínima. Todas se regem por ideias tão simples quanto óptimas que te fazem pensar que se calhar o riff é mesmo a melhor invenção na história da humanidade. Todas tão divertidas e enérgicas que te deixam com saudades do último mosh. Canções que tão depressa acabam, que nos deixam cheios de vontade de carregar no play novamente. A garagem está conquistada, falta o mundo.

 


 


Vitorino Voador — O Dia em que Todos Acreditaram


(Azáfama)

 

 

Fazendo jus à sua reputação de multi-instrumentalista, a João Gil associamos a presença numa data de projectos nacionais relevantes. You Can't Win Charlie Brown, diabo na Cruz ou os já defuntos feromona são alguns dos projectos integrados pelo lisboeta que ao longo dos últimos anos marcaram presença assídua em leitores de música, palcos e topes nacionais. Em 2012 João Gil tornou-se também Vitorino Voador, manifestando uma nova faceta — mais intimista, pessoal, e cheia de vontade de contar histórias. 

Depois de Vitorioso Vôo representar a sua estreia discográfica sob a forma de EP, O Dia em que Todos Acreditaram marca o seu primeiro registo de longa-duração. E feitas as contas, parece soar exactamente à evolução a que desejámos assistir quando há cerca de dois anos Carta de Amor Foleira e restantes canções nos deixaram um pouco de pé atrás – este é um disco mais adulto, ponderado e evoluído em todos os sentidos. Abandona de certa forma uma lamechice exacerbada que pautou Vitorioso Vôo — Gil mostra-se mais certeiro e rigoroso com as palavras — sem sacrificar um tom soturno que tão bem se conjuga com as narrativas que constrói. Mostra-se menos ingénuo, mas sem sacrificar a intimidade que lhe define a identidade deste Vitorino. Sustentando estas histórias, encontramos também uma série de batidas electrónicas, acordes de piano e dedilhares que se juntam num instrumental mais complexo, interessante e cativante. Um renascimento das asas, sem que nunca ouse voar demasiado perto do sol.

 


 


We Bless This Mess — Love and Thrive


(Biruta Records)

 

 

A premissa de Nélson Graf Reis enquanto We Bless This Mess não poderia ser mais simples: canções para amigos, inspiradas pela vida. Love and Thrive, EP gravado no Brasil que marca a estreia discográfica deste projecto do portuense — ele que também é membro dos Blackjackers e baixista nos concertos de Throes + The Shine — mostra-se ao mundo como uma bonita colecção de cinco canções acústicas em tom de celebração.

E é com a liberdade dos acordes de guitarra, acompanhada por uma discreta percussão e alguns outros arranjos subtis que Love and Thrive exprime tudo aquilo que tem para nos dizer: as melodias são simpáticas e fáceis de captar, e o ligeiro travo de esforço que a voz apresenta — como que se estivesse quase prestes a quebrar, mas aguentando-se sempre no equilíbrio certo — completa a personalidade intimista e afável destas canções. Ora alterna entre baladas que poderiam ser recitadas à luz de uma fogueira sob um céu estrelado (atente-se aos versos bonacheirões de Darling, por exemplo), ora sobe a ritmos mais enérgicos que nos levam a marcar o compasso com o pé no chão (Aside Heaven and Hell There's Peace ou Silence). Advoga uma muito necessária serenidade perante tempos difíceis, mas sem se deixar cair numa armadilha de positivismo foleiro e exagerado. Como não gostar?

 




(CC) Foto de capa por eldeeem.
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