Mesada Electrónica: 5 discos portugueses em Outubro

Gabi Von Dub


Sejam bem-vindos à nova rubrica ”Mesada Electrónica”, onde todos os meses daremos conta do mais relevante e interessante que se edita neste jardim à beira mar plantado. Se já desde os 90's não tínhamos esmola para dar ao eterno complexo Portugal/estrangeiro, muito menos a temos agora, num ano que, à semelhança de 1994 (ano que marcou a explosão editorial de dance music no nosso país), tem sido abundante em discos arriscados, criativos, inluenciados mas influentes e potencialmente intemporais.

Assinam-se contratos, cedem-se faixas, acontecem eventos,  prensa-se vinil, DJs e live-acts circulam de Norte a Sul e, graças muito aos media digitais, a nossa cena é cada vez mais dinâmica e consciente de si própria. A Viral pretende enaltecer este fôlego musical, escolhendo todos os meses (sim, edita-se todos os meses) alguns discos que consideramos serem chave para mais descobertas e explorações dentro da nossa cena.

 

 

1. V/A – LYFERS VOL.1 (1980)

 

    PLAY: Daino – Fleeting Space   

 

Um ano forte em compilações e novas editoras. E é interessante ver como, mais do que simples alinhamento de faixas, temos produto servido à moda de manifesto, com  acabamento artístico e amadurecido, reflectindo a míriade de referências e estilos explorados desde há vários anos no nosso país.

A editora 1980, gerada este ano, tem aprendido a andar ora pelo ar ora pela fibra, entre o Porto e Londres, e apresenta agora um dos frutos de anos de melomania dos seus mentores. LYFERS é uma viagem ao centro do ultramundo electrónico português, um compêndio de onze temas de gente activa no panorama como Tugalife, José Acid, Deestant Rockers, Miguel Torga ou Daino, side projects como Spaced Out (MC Maze) ou ainda outros projectos com elevadíssimo potencial de fervura.

O Dub parece ser aqui uma espécie de cola e maestro ao encontro do qual se afina Hip-Hop, Jungle,  Ambient, House, Wave, criando a perfeita banda sonora tanto de um imaginário urbano da rua, das ruas, como da sedução chill out de um anoitecer cheio das luzes da cidade, mas dentro das nossas congeminações mais íntimas. Um disco com atitude e ao mesmo tempo relaxado, que, em conjunção com este verão escaldante de S.Martinho, me fez ir buscar uma t-shirt fresca à gaveta. Escuta obrigatória. Desejamos à 1980 o melhor futuro!

 


 


2. Daino – Without your Love (TINK! Music)

 

    PLAY: Daino - House of Six     

 

E por falar em Daino, infelizmente os meus ouvidos só agora estão a chegar atentamente à música dele, mas temos aqui um caso muito sério entre mãos.

Na sequência de um EP estrondoso editado pela alemã Blossom Kollectiv, chega-nos agora “Without your Love”, um extended play pela mão da também renovada, pulsante e portuguesa TINK! Music. Três temas que eu classifico, sem delongas, de dance music à séria e sem fronteiras. Bem disposta, soulful, com coesão instrumental e orquestral, porque Daino é músico nos genes e trata as suas referências por tu, baralhando e voltando a dar, sejam elas piscadelas a uns Global Communication, ao inconformismo Detroitiano, à Disco mais jamming ou até matinais prolongadas com um certo sabor Prog-house. Três temas que, embora diferentes entre si, se completam e generosamente exercem o serviço público de abrir horizontes.

Destaque também à qualidade sonora do disco, ou não tivesse ele sido produzido e masterizado (pelo próprio e por Kaspar) nos Portland Sound Studios, casa que promete rebentar a fasquia na qualidade que oferece nos seus serviços. Onde é o próximo gig do Daino?

 


 


3. Robot Love – Melancoil EP (Sui Generiz)

 

 

Mas toda a gente adivinhou este verão tardio? A Sui Generiz, se calhar por causa da sua posição estratégica, farejou antecipadamente o anticiclone dos Açores e lança agora este Melancoil do projecto Robot Love. Para ficarmos bem quentinhos, seja do sol ou da música.

Steve Nishimura, havaiano de nascença e agora com escala em Boston, atira-nos com dois temas delicodoces próprios do ócio e da brisa marítima, com bases no soul e no jazz, mas com andamento house. Classe até dizer chega. Um disco para a melhor refeição, companhia, ou até melhor livro debaixo do braço. Mas vou ser tendencioso e dizer que na remistura é que está o elemento surpresa, pois Alexx Wolfe (dono da Sui Generiz) e Batel não tiveram vergonha na cara ao dissecar esta harmonia colorida e a transformar numa escalada psico- techno para mentes em hora de ponta. Não entendo como ainda não tens isto na “mala”.

 


 


4.  V/A – Xina Electronica (Labareda)

 

 

Apesar da sua personalidade consistentemente peculiar e transgressora, que para alguns não é “novidade”, Sonja acaba sempre por nos trocar as voltas, dê por onde der. Até porque as suas, também elas complexas, navegadas ferozmente com o sonho a ditar implacabilidade, a fizeram ou moldaram como é. Quando muitos pensam “em chegar à Madeira” em termos estéticos ou artísticos, já ela de lá veio e deu a volta ao mundo.

Decide então este ano instalar no planeta a sua editora “Labareda”, onde com “mucho amor” tem catalizado algumas supreendentes poções sónicas e, talvez alicercada nas suas memórias de habitante em Beijing nos traz, através de “Xina Electronica”, uma colheita improvável e suculenta baseada somente na China. Numa atitude coerente com a sua personalidade e o mistério associado a este país do qual ainda hoje desconhecemos grande parte, vai desvendando um a um, o elenco explosivo que constitui este disco.

Uma sequência de temas de várias latitudes, o ambient kraut de Menq Qi a entrar por territórios de preparação ritualística sonora, magicados por este guru do som, a beleza anímica e shoegaze de Thruoutin, a coolness contagiante de FlØØØd, as incursões pisteiras e certeiras de Dj Doggy e American Booze e o tratado noise de Torturing Nurse, pois quem sonha, às vezes tem que acordar do sonho, e talvez a inclusão deste tema em último, seja para isso mesmo, acordarmos de uma viagem onírica a um mundo não muito falado ou sentido por cá, e de onde não nos apetece sair para já. Estava-se muito bem dentro deste disco, aonde não tardarei a voltar. Muita chama e arrojo, é disto que se fala no presente state of the art e é assim que queremos.

 


 


5. Shcuro – Black Acid EP (Sombra)

 

     PLAY: Shcuro - Black Acid      

 

Mais uma editora nova, a Sombra, que nos traz o apocalipse servido sem entradas nem miniaturas gourmet, pelas mãos do seu co-fundador Shcuro, num EP que vai fundir as luzes no teu clube de referência.

Primeira edição e logo avassaladora. Black Acid é maquinal, lisérgico, narcótico ou qualquer adjectivo que vos remeta para um sítio onde já não sabeis de que terra sois. Paisagens urbanas cinzentas, entrecortadas com silvos de cor aqui e ali, consegue-se perfeitamente visualizar a velocidade estonteante da electricidade a percorrer os cabos de alta tensão, a insanidade latente, o futuro incerto. O que virá depois? Só Shcuro o dirá.

O original é o meu tema favorito , in your face, com personalidade e originalidade no groove. Nos remix duties, temos o enorme Paul Mac, e ainda Myler e Larix (os quais vou deixar nas vossas mãos irem pesquisar, porque esta rubrica serve também para vos instigar a curiosidade) onde por sua vez desconstroem o original em três versões mais breakbeat industrial, demolidoras e com a tensão como fio condutor. Citando a descrição no Soundcloud, “ressonâncias de um passado distante e de um futuro apocalíptico”. É isto mesmo.

 

 

Tinha prometido a mim mesmo não referir estes pormenores, porque não sou purista de formatos, mas é de louvar a coragem e o risco económico de primeiras edições em vinil. E assim fecho esta Mesada Electrónica, com o desejo de boas escutas e boas compras.

(CC) Foto de capa por Stretta.
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