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Lourenço Crespo

Lourenço Crespo

Há uma canção do Jonathan Richman and the Modern Lovers chamada ‘The Morning of our Lives’, que nunca saiu em disco de estúdio, apesar de encontrarmos versões ao vivo. Richman dirige-se a um amigo que está a passar por um mau bocado – "It hurts me to hear, to see you got no faith in yourself". A solução, diz ele, é o exercício de entendimento interior, da procura da verdadeira beleza, antes de olharmos para fora, o exterior, e tudo o que o mundo tem para nos oferecer – "our time is now, here in the morning of our lives". O que o torna tão único é a forma como usa a linguagem e a escolha das palavras. Meticuloso e cuidadoso. Um orador motivacional não tem de ser radical nem um charlatão. Um team builder como um amigo. É nesta linhagem que encontro o Lourenço Crespo. Observador nato, de sensibilidade cautelosa, que encontra a narrativa numa procura de si próprio, como qualquer boa pessoa na casa dos 20s. Procura-a e encontra-a no que o rodeia: nas suas amizades, nos seus relacionamentos, na sua intimidade, no passado vivido e no futuro por viver. Ao contrário de Richman, o Lourenço acaba por se enquadrar mais na esfera poética existencialista do europeu que há dentro dele. “Manda o corpo ao rio”, ideia-drama suicida desenhada de várias maneiras em várias canções. Está tudo bem? – "Queria tanto falar-te / puxar-te mais perto de mim". De qualquer forma, por mais dramática que seja a vida, a realidade, ou o "limbo", há sempre o oposto, o outro lado. A química salva com a polarização. ‘Eras tu de certeza’ transporta-nos para um cenário pantera cor-de-rosa, um monólogo esquisito que abre o disco homónimo. E fica a ideia. Ele está a falar para quem? Sendo sua prima e amiga de infância, é difícil não achar que há umas sobre mim, outras sobre o outro, ou a outra. Mas na verdade isso não interessa, porque as canções são cristais e o que sentimos é a sua forma. Aqui é imperativo falar da força e da importância que tem a produção, a colaboração com o B Fachada, cientista dos arranjos, perfeccionista na arte do "setting the mood". Quando falei com ele sobre a produção disse-me: "Retro mas não vintage". Tá dito. Há uma tendência nas novas produções de disco independentes para simular uma década que não nos pertence, fetichizando-a. Nada sexy. O que acontece neste disco é precisamente o oposto. Não há forma certa, há várias possibilidades. Um disco clássico não tem validade. A promessa da experiência é o que vamos encontrando a cada escuta, os jogos de harmonia da Sallim, o B baixista, a guitarra do Dória, o sax do Sousa. E, acima de tudo, encontrar as novas palavras que habitam em cada um de nós.

Fonte: https://lisboa.circuito.live/
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