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Madama Butterfly – Ópera no Património

Madama Butterfly – Ópera no Património

Butterfly – a borboleta consumida no fogo da sua própria ilusão.

Madama Butterfly de Giocomo Puccini com libreto de Luigi Illica e Giuseppe Giacosa.

O libreto de Butterfly baseia-se no conto de John Luther Long que, por seu turno, ouviu a história de sua irmã, Jennie Correll. Incorpora ainda elementos dramáticos da novela Madame Chrysanthème de Pierre Loti. O conto de Long deu origem a uma peça de teatro em um ato de David Belasco, com o nome de Madame Butterfly ou Uma Tragédia do Japão, estreada em 1900.

Puccini (1858-1924) viu a peça de teatro e ficou encantado com uma possível ópera a partir do mesmo material dramático. Madama Butterfly, no original italiano, acabaria por ser estreada em 17 de Fevereiro de 1904 no Alla Scala de Milão com um relativo fracasso. O compositor tinha acabado a ópera à pressa e os tempos de ensaio foram muito reduzidos. O público de Milão, extremamente exigente com o canto, não apreciou a ópera obrigando Puccini a refazer a ópera. A nova versão, estreada em Brescia a 28 de Maio, foi acolhida com grande sucesso refazendo o caminho de êxito que o compositor, com raro faro para o sucesso comercial, almejava. Puccini, não obstante o sucesso de Brescia, não ficou satisfeito com a partitura concluindo mais três versões. Acabou por ser a quinta versão, concluída em 1907, que representa hoje em dia em quase todas as casas de ópera do planeta.

Butterfly tornava-se uma das mais famosas óperas do repertório em todas as casas de ópera do Planeta e um ícone da ópera. Butterfly é a sexta ópera com mais representações a nível mundial depois de La Traviata, Flauta Mágica, Carmen, La Bohème e Tosca. Em Portugal a ópera estreou-se no Teatro Nacional de S. Carlos em 1908, apenas quatro anos após a sua estreia absoluta e um ano depois da versão definitiva ter sido concluída.

O argumento desta ópera retrata um casamento temporário entre uma gueixa japonesa de Nagasaki, Cio-Cio-San (que significa borboleta, i.e., Butterfly em inglês), e um tenente da marinha de guerra americana, Benjamin Franklin Pinkerton em comissão de serviço na cidade. Estes casamentos eram habituais na sociedade japonesa de então, com leis de divórcio muito simplificadas, em que o casamento servia os interesses dos ocidentais, no local e no momento desejado, sendo depois desfeito aquando do término da comissão de serviço ou da estadia do oficial em terras do Oriente. Apesar das convenções que marcavam este tipo de casamentos, este foi levado à letra pela jovem gueixa que se apaixonou perdidamente por Pinkerton, renunciando à sua religião e convertendo-se inclusivamente ao cristianismo, o que a excluiu da sua própria sociedade.

O americano virá, mais tarde, a partir. Faz a promessa de voltar, deixando Cio-Cio-San, que amava verdadeiramente o americano, ansiosa pelo regresso deste. Três anos se vão passar e a jovem nunca mais se esqueceu de Pinkerton. Este, entretanto, casa-se nos Estados Unidos da América com uma jovem americana, Kate, sem imaginar que Butterfly continua à sua espera, ignora também que tem um filho de Cio-Cio-San. Quando, finalmente, o navio de Pinkerton, o Abraham Lincoln, regressa a Nagasaki, o tenente vem acompanhado de Kate, a sua legítima esposa americana.

Pinkerton virá a saber, após a sua chegada, que tem um filho da japonesa e que esta o aguardou mais de três anos. Sabe ainda que Cio-Cio-San rejeitou os avanços de um magnata local que pretendia desposá-la. Quando Cio-Cio-San compreende tudo, isto é, que Pinkerton nunca mais será seu e está casado com uma americana, perde todas as esperanças. Está condenada a uma vida de desonra e exclusão social e, sem o amor da sua vida, esta vida não terá o menor sentido. A antiga gueixa despede-se do seu filho, que passará a viver com o casal Pinkerton, e comete seppuku, o suicídio ritual tradicional do japão.

Esta história de amor superficial de Pinkerton em contraste com o amor profundo de Cio, é frequentemente encenada de forma, também, superficial. Costuma ver-se nesta história, muitas vezes banalizada e comercializada, mais um mero drama de amor desencontrado para fruição puramente hedonista dos burgueses apreciadores de ópera. Nesta leitura a tragédia primária de Cio-Cio-San é enfatizada apenas como veículo para escutar o canto em primeiro lugar e a música, com alguns tiques de orientalismo e pitoresco, em segundo. No entanto, o libreto encerra dentro de si leituras mais profundas do que esta. É uma parábola da forma como as nações mais poderosas se serviam dos recursos dos países, na altura, mais fracos. Todos os países menos poderosos do Mundo serviam para suprir a cobiça dos mais poderosos, não apenas em recursos, mas também em serviços, usando os seres humanos como servos descartáveis. É nessa tremenda assimetria, no plano emocional, e no plano das relações de poder, que esta ópera se desenrola, uma leitura crítica que Puccini não deixa de fazer, nomeadamente na forma como descreve musicalmente os personagens, inclusivamente usando o Star Spangled Banner, o hino nacional norte-americano, quando descreve Pinkerton.

Puccini, um compositor de génio, faz sentir através da música, que serve de forma excecional o teatro, essa assimetria que se sente também através da música. A música é sempre mais convencional, para Pinkerton do que para Butterfly, sendo esta verdadeiramente através da sua verdadeira e pura entrega o motor da tragédia. Este decisivo fator é revelado pela análise da partitura ou através de uma audição atenta da mensagem subliminar que Puccini transmite através dos sons.

Puccini dispensa abertura ou prelúdio, a ação decorre imediatamente nos primeiros compassos, como se Puccini quisesse precipitar os eventos, agarrar o público pelo pescoço e não o deixar respirar até à consumação do Seppuku ritual, o suicídio anunciado, à letra no final da ópera.

O compositor utiliza melodias japonesas para caracterizar o ambiente e os personagens japoneses da obra. Os americanos são retratados sempre com música típica da ópera italiana. As partes corais são simples, Puccini realizou coros muito superiores noutras óperas como, por exemplo, na Turandot. Por outro lado, não há cesuras ou cortes, toda a música flui de cena para cena sem números convencionais da ópera italiana, não há árias, ou outros números isolados como cavatinas, duetos, tercetos ou com finais grandiloquentes no final de árias bombásticas apenas para puxar o aplauso e o ego dos cantores.

Apesar de se inserir numa tradição italiana, Puccini usa a orquestra com grande maestria, fazendo-a introduzir temas e melodias e usando livremente de leitmotivs que repete, caracterizando situações dramáticas e reforçando com a memória a compreensão da obra. Conduz, assim, o espectador ao longo da obra, guiando a sua inteligência e, sobretudo, a sua emoção, algo que retirou com mérito da teoria e prática de Wagner.

Toda a Butterfly nos leva para o gigantesco espasmo emotivo da morte de Cio-Cio-San no final. Puccini cria um vórtice emocional. Se a música for bem interpretada, se a representação for convincente, esta é uma ópera que deixa toda uma plateia em lágrimas de emoção à chegada dos acordes finais. Puccini e os seus libretistas dominavam o conceito dramático e teatral, esta emoção, controlada de início, vem a ser aumentada em doses homeopáticas ao longo dos três atos desta ópera. Este crescendo é o âmago do sucesso de Butterfly junto do grande público e funciona de forma magistral, nomeadamente pela forma como a ópera termina, sem ser na tónica, um maneirismo de Puccini que é uma pista para as suas verdadeiras intenções: deixar a emoção passar para além da última nota da ópera e ficar na memória, digamos inacabada, do som da tragédia. A morte corta assim um discurso que poderia ter continuado de outra forma, se o americano Pinkerton fosse sincero e não um cobarde insensível e superficial, um parasita que até o filho de Cio-Cio-San lhe rouba, para o educar à americana. Há um violento contraste entre Pinkerton, um personagem abominável em que tudo é falso, e Cio-Cio-San, o Sol radioso desta obra.


Fonte: https://www.teatrojlsilva.pt/evento/madama-butterfly-opera-no-patrimonio/
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