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BPARPD | Documento do mês | Setembro 2021

BPARPD | Documento do mês | Setembro 2021

Na base histórica do turismo ocidental contemporâneo está o Grand Tour, fenómeno de origem setecentista inglesa, no qual desempenhavam lugar de destaque não só a alta aristocracia e a gentry terratenentes, mas também a burguesia endinheirada. Tinha como propósito complementar a educação e formação daqueles que empreendiam essa longa viagem, com uma duração média de 2 anos, observando-se uma preferência pelos destinos da Europa meridional, onde se localizavam as ruínas clássicas, muito admiradas na época.

A 2 de dezembro de 1836, o morgado José Caetano Dias do Canto e Medeiros e seu primo e, mais tarde, genro, João Silvério Vaz Pacheco de Castro (1), iniciaram o que poderá chamar-se um grand tour atípico, não só pela idade de um dos viajantes (2), como pela duração mais curta da viagem e pelo percurso europeu mais setentrional do que o tradicional.

Segundo o Diário de viagem do Morgado José Caetano Dias do Canto e Medeiros, transcrito por Nuno Álvares Pereira e publicado na revista Insulana (3), a viagem tinha como destinos pré-estabelecidos Londres e Paris, tendo sido deixados ao acaso os restantes – Lisboa, Falmouth, Ilha de Wight, Southampton, Le Havre, Versailles, Saint Cloud, Bruxelas, Antuérpia, Aachen, Roterdão, Amesterdão, Hamburgo e Portsmouth. Findo o seu périplo europeu, os dois micaelenses chegaram a Ponta Delgada a 24 de setembro de 1837, muito debilitados pelas péssimas condições da viagem de regresso de Inglaterra. (4)

Relativamente a esta viagem, podemos encontrar alguma correspondência, no Arquivo Regional de Ponta Delgada, no arquivo pessoal do morgado José Caetano, nomeadamente cartas de recomendação endereçadas a personalidades residentes em algumas das cidades visitadas ao longo do trajeto, bem como outras que lhe foram dirigidas durante esse período. Esse é o caso da carta de Torres Mangas a António José Batalha, negociante no Havre, em que apresenta os viajantes e pede que ali lhes sirva de guia (5). Outro documento que se conserva, desse passeio pela Europa, é um certificado de chegada a Londres, que selecionámos para documento do mês e que se refere ao regresso dos dois micaelenses a Inglaterra, em agosto de 1837, para a viagem de volta a Ponta Delgada.

A 10 de janeiro de 1908, José Bruno Tavares Carreiro (Coimbra, 28 de agosto de 1880 – Ponta Delgada, 4 de janeiro de 1957) empreendeu uma viagem de recreio à Europa meridional, o que pode considerar-se um contraponto ao itinerário adotado pelos grand touristes, anteriormente referidos. Começou pela cidade de Gibraltar, passando por Génova, Nice, Mónaco, Milão, Lyon, Auxerre, Paris, Palermo e Nápoles, e regressou a Ponta Delgada a 2 de abril do mesmo ano, como pode ver-se num conjunto de folhas em que anotou, com uma regularidade diária, o que fez, o que visitou e com quem esteve. O documento, a que foi dada a designação de Diário de viagem à Europa, não obstante a forma singela e quase telegráfica como está escrito, foi também aqui incluído, para complementar e ilustrar o tema deste documento do mês.

Embora o Grand Tour de José Caetano Dias do Canto e Medeiros e João Silvério Vaz Pacheco de Castro e a viagem de recreio de José Bruno Tavares Carreiro estejam separados por 72 anos, podemos encontrar-lhes semelhanças e diferenças. Enquanto que os viajantes de 1836-1837, procuraram conciliar negócios e recreio em todos os pontos do seu itinerário, o viajante de 1908, então com 28 anos, dedicou-se apenas ao lazer, o que se encontra refletido nos itinerários escolhidos para ambas as viagens, que, tanto uma como a outra, se prolongaram por alguns meses, embora a de José Bruno tenha sido muito mais curta. Note-se, ainda, que, à semelhança de José Caetano e de João Silvério, também José Bruno encontrou vários conterrâneos ao longo do percurso da viagem, com quem visitou museus e monumentos e foi a jantares, cafés e teatros.

(1) – Entre as famílias de ambos (os Dias do Canto e Medeiros e os Vaz Pacheco de Castro) tecera-se uma intensa teia de parentesco, estreitando-se os laços familiares, principalmente ao longo do séc. XVIII.

(2) – José Caetano Dias do Canto e Medeiros tinha 50 anos, pois nascera em Ponta Delgada, São Pedro, a 16 de outubro de 1786, onde veio a falecer, a 23 de outubro de 1858. Já João Silvério Vaz Pacheco de Castro nascera em Ponta Delgada, São Pedro, a 20 de junho de 1810, e aí faleceu, a 27 de fevereiro de 1900, contando, então, 26 anos.

(3) – Insulana. Ponta Delgada. Vol. 26/27 (1969/1970), p. 159-207.

Insulana. Ponta Delgada. Vol. 28 (1972), p. 168-210.

Insulana. Ponta Delgada. Vol. 29/30 (1973/1974), p. 125-143.

Insulana. Ponta Delgada. Vol. 31/32 (1975/1976), p. 33-114.

(4) – Para uma abordagem recente sobre a viagem de ambos os morgados micaelenses, ver:

COUTO, Joana M.; TAVARES, Mónica S.; MELO, Pedro Pascoal de; RAPOSO, Vitória C. – Um Grand tour atípico: a viagem à europa de José Caetano Dias do Canto e Medeiros e de João Silvério Vaz Pacheco de Castro (Dezembro de 1836 – Setembro de 1837). In Memória e identidade insular: religiosidade, festividades e turismo nos arquipélagos da Madeira e Açores. Coord. Duarte Chaves. Ponta Delgada: CHAM; Velas: Santa Casa da Misericórdia, 2019. P. 309-322. Consultado em linha em https://online.fliphtml5.com/dvwmy/ovqw/#p=1 [2021.07.01].

(5) – O remetente dirige-se-lhe como M.r Le Chev[alli].er Batalha.

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Legenda do documento do mês:

Certificado de chegada ao porto de Londres, emitido a Jose Caetano de Canto e a Joao Silvero Pachheco de Castro [sic].

Londres, 14 de agosto de 1837.

e

Carta de Torres Mangas dirigida ao Chevallier Batalha.

Lisboa, 14 de abril de 1837.

BPARPD. Arquivo Dias do Canto e Medeiros, cx. 1, pt. Grand Tour de 1837.

Diário de viagem à Europa, de José Bruno Tavares Carreiro.

10 de janeiro de 1908 a 2 de abril de 1908.

BPARPD. Arquivo Tavares Carreiro, doc. 2082.

Ver Documento do mês

Fonte: http://www.culturacores.azores.gov.pt/agenda/default.aspx?id=38586
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